O sofrimento decorrente do abandono é compreendido como uma experiência emocional profunda que pode afetar o desenvolvimento da personalidade, a forma como o indivíduo percebe a si mesmo e a maneira como estabelece vínculos ao longo da vida. Esse sofrimento pode ocorrer em diferentes fases do desenvolvimento humano e assumir diversas formas, como abandono físico, emocional, afetivo ou social.
O abandono é entendido como a ruptura ou ausência de vínculos de cuidado, proteção e pertencimento considerados fundamentais para o desenvolvimento humano. Nem sempre está relacionado à ausência física de uma figura significativa, muitas vezes, ocorre quando as necessidades emocionais da pessoa não são reconhecidas ou atendidas. Pais emocionalmente indisponíveis, negligência afetiva, rejeição, institucionalização prolongada ou exclusão social podem gerar sentimentos semelhantes aos provocados pelo abandono físico.
Percebemos que uma das formas mais comuns de abandono é o paterno. Crianças que crescem sem o pai biológico, em muitos casos, há uma substituição da referência paterna, mas em outros, não. Principalmente quando não há uma nova referência, o impacto dessa falta é muito significativo. A substituição do pai pode suprir parcial ou totalmente o sentimento de abandono.
Quando o abandono ocorre durante a infância por ambas as partes, pai e mãe, as consequências tendem a ser intensas. Por ser a fase na qual a criança está se desenvolvendo e a base de segurança emocional se faz de extrema importância, por ser o maior definidor de como essa criança irá lidar com suas emoções e relações na vida adulta. Sucedendo o abandono ou negligência, podem surgir padrões de apego inseguros, caracterizados por medo da rejeição, dificuldades para confiar nas pessoas, dependência emocional excessiva ou tendência ao isolamento afetivo.
Na ausência dos genitores como responsáveis legais e afetivos, comumente muitas dessas crianças em situação de abandono passam a morar com outros familiares, assumindo papel legal e de referência paterna e materna. Quando isso não acontece, as crianças passam a morar em abrigos ou orfanatos na expectativa de serem adotadas por uma boa família. Em muitos casos, isso não acontece e ao se tornarem maiores de idade, precisam desocupar a instituição e são os próprios responsáveis por si.
É importante salientar o abandono de pessoas com deficiência, que passam por todo esse processo com o adicional dos preconceitos e marginalização da sociedade e, quando crianças, seguem o mesmo caminho para abrigos e orfanatos, com o diferencial de que suas condições físicas e/ou intelectuais os levam a passar de instituição em instituição devido ao abandono e ausência de laços familiares, sociais, estigmas da sociedade que causam ainda mais sofrimentos.
As consequências emocionais do abandono são diversas, como o sentimento de rejeição, a baixa autoestima, insegurança emocional, medo do abandono, ansiedade, depressão, dificuldade de regulação emocional, dependência emocional, evitação afetiva, sentimento de culpa e/ou vergonha, isolamento social, traumas psicológicos, entre outros.
O acompanhamento psicológico é muito importante para lidar com as adversidades em decorrência do abandono ou negligência. No caso das pessoas institucionalizadas, é essencial políticas públicas atualizadas visando o bem-estar físico, social, emocional e até familiar de seus acolhidos, na intenção de fortalecer os vínculos familiares na medida do que for possível e saudável para ambas as partes.
É importante destacar que nem todas as pessoas abandonadas desenvolverão os mesmos prejuízos emocionais. A intensidade das consequências depende de fatores como idade em que ocorreu o abandono, duração da experiência, presença de figuras de apoio, características individuais e acesso a suporte psicológico. Relações afetivas saudáveis, acolhimento familiar, psicoterapia e fortalecimento da autoestima são fatores que contribuem significativamente para a superação dessas experiências.
Precisamos lembrar que se trata de pessoas com direitos à vida, à dignidade, à educação, à saúde, à socialização, à espiritualidade como qualquer outra pessoa e, ainda mais, precisam de atenção, respeito e carinho em como são tratadas. A vida já foi cruel e difícil demais com elas, não precisam de mais julgamentos e exclusão da sociedade, seja por qual for o motivo do abandono.
