Mara Narciso

Vida: um eterno consertar

Publicado em 11/05/2026 às 19:00.

Os sete sentidos, para além da fisiologia, servem para perceber, deficitariamente, e modificar pateticamente o mundo, não o planeta, mas o medíocre espaço e pessoas em volta de cada um.
 
Apesar da ação desastrosa da humanidade sobre a Terra e sua ferocidade em destruir seu habitat, há 8,3 bilhões de insignificâncias a caminhar sobre ela, com pensamentos obtusos e crentes de valer alguma coisa. Essa incapacidade perceptiva coloca-os em seus devidos lugares: tentativas de consertar a si mesmos e ao seu quintal, mas não consegue nem isso.
 
Viver é criar avarias nos outros e em si mesmo. Quantas vezes se faz sofrer, e outras tantas alguém lhe faz o mesmo? Se não por atos ou omissões, que seja por voz ou escrita, nesses tempos de ausência de olho no olho e violência vocabular.
 
Vire a chave e trate de manter a calma, reconstruindo seu bem-estar, paz de espírito, amor, afeto, harmonia. Viver é plantar sementes, ver nascer, brotar, crescer, florir, frutificar. Viver é edificar, desde a base até o teto, e então, com boa intenção, passar a reformar, consertando, trocando partes, construindo um ambiente confortável para mais bem existir. E caso se machuque alguém, deve-se consertar o malfeito, reconhecendo erros, caso houver, buscando desfazer mal-entendidos. Se os prejuízos emocionais puderem ser justificados, que se faça isso.
 
O mundo material quebradiço é complexo e, caso não seja muito antigo, há peças para substituição. Muito mais confuso, intricado e labiríntico é o ser humano, desumano por vezes. A maldade assola esse mundão devido ao espírito destrutivo de muita gente. Desde que crimes e desastres têm seus vídeos correspondentes, foi preciso criar uma casca grossa feito árvores do cerrado para suportar tantos horrores. O asco assume dimensões incontroláveis quando envolve crimes sexuais, em especial contra vulneráveis.
 
Sem poder consertar a humanidade, é preciso ser bom para si e para os próximos e os de longe. É utópico um mundo sem guerras, sem fome. "Vamos precisar de todo mundo", cantava Beto Guedes em 1981 – O sal da Terra.
 
Isso no coletivo. E no individual, como se está? Cumprimenta as pessoas, pede por favor; diz obrigada? Procura ser justo? E consigo mesmo? Vive em um ambiente de paz? O lugar é limpo e agradável? Tem teto, alimento, água potável, esgoto canalizado? Ah, se todos pudessem ter esse mínimo conforto!
 
Tem saúde? Pode seguir com tratamentos crônicos? O que fazer para manter liberdade, independência, autonomia e privacidade até o último dia? Busque se exercitar, e, se preciso, procure médico, exame, farmácia. Que a dor de hoje possa passar, e que haja remédios para ser curado. As dores físicas são terríveis, mas, em geral, superáveis. As dores da alma, emocionais, afetivas, sentimentais são indeléveis.
 
Sim, viver é um eterno consertar. Em utopia delirante, é preciso desejar que todos sejam consertados, física e emocionalmente e que a vida possa ser um grande concerto no parque sob um sol de primavera, com almas cintilantes e estômagos satisfeitos.

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