Karla Celene, a poeta do transbordamento, lançou seu primeiro romance em prosa poética, já que seu universo e modo de falar sorrindo, viajando e escrevendo é um grande poema. “Uma flor dentro da noite” é o 11º livro da autora que faz parte da Academia Montes-clarense de Letras, na qual posiciona-se com clareza e participa de todas as antologias – os livros coletivos.
A esfuziante imagem de Karla Celene, a Rita Lee do Sertão, pela sua semelhança física com a cantora, já falecida, levou-a a viver interessantes momentos, não contados no livro, pois é praticamente uma sósia. Traz nos cabelos de fogo, uma aura de bruxa, e ainda é casada com Roberto Pinto, mesmo nome da paixão da Rainha do Rock, Roberto de Carvalho.
“Uma flor dentro da noite” faz parte do realismo fantástico, pois traz como alegoria uma flor noturna mágica branca de halo azulado, de existência fugaz, com o poder de, com sua luz, arrebatar a pessoa que a vê. Surge entre as plantas de Naná, uma anciã de mal com a existência, sem presente, pouco a lembrar e a esperar. Pois a flor a faz alegrar-se e ter sede de viver. Sua sobrinha Carolina é chamada a ir vê-la para conhecer a flor, mas essa jaz murcha. Na próxima noite outra flor surge. Animam-se e decidem fazer um grande encontro com amigas.
A trama se emaranha e desemaranha, contando, pouco a pouco, as histórias amorosas, familiares e profissionais das personagens que participarão da reunião, com seus encontros, desencontros, acertos de contas ou não, vida afora. Há pontos pendentes que precisam ser resolvidos.
Não é obra para ser lida com pressa. É lição de vida, de bem viver e principalmente de bem conviver. De forma filosófica, evita ditar regras ao analisar a situação da mulher, a evolução de seus direitos, e o faz de forma leve, amorosa, delicada, alertando para que se unam pelo bem comum.
Ventania do Norte é Francisco Sá – o querido Brejo das Almas, e Ponte Santoro – homenagem aos amigos da autora Elthon Santoro e Ismoro da Ponte – é Montes Claros, referida como a capital.
Três gerações se reúnem na casa de Naná para ouvir amigas, com destaque à Luciana, versada no tema, que traz pensadores consagrados e sugestões para bem viver.
Karla Celene nega, mas Carolina é ela, e assim pode desfilar sua meninice, amizade com a tia, e costumes da cidade pequena de forma solta, suave, como escritora se mostra ao mundo. Ao mesmo tempo em que prega a paz entre as pessoas e crê nela, é através da boca de Carolina que a autora defende uma batalha consciente por direitos e oportunidades iguais para as mulheres com suas singularidades e estilos plurais.
O enredo serve de invólucro ao protesto contra o domínio e opressão masculinos sobre as mulheres, e suas consequências como sexismo, misoginia, violência doméstica, castração, servilismo sexual e feminicídio.
“Uma flor dentro da noite”, com seus superpoderes, é uma lição para despertar, pois irradia claridade, catalisando a união das mulheres em favor de si mesmas, para montar um dueto afinado com seus parceiros, se assim o quiserem, ou sós e felizes.
