Amor é para ser descompreendido. Quem dera que o sentimento maior costumasse chegar embrulhado em simbólica caixa de papelão, vindo por via aérea, no formato de rosas colombianas vermelhas imensas, as maiores do mundo, sem perfume, significado perfeito, envolto em delicada lã rústica, amarrado em laço com distribuição estética irrepreensível, e nesse ramalhete, delicadamente pousado, um cartão de linho com versos de Fernando Pessoa: “Amo como o amor ama/ Não sei a razão pra amar-te mais que amar-te/ Que queres que te diga mais que te amo/ Se o que eu quero dizer-te é que te amo”? Esse ardil infalível, nem se discute; faz subir labaredas a chamuscar o mais indiferente dos seres. Amor não se compra, não se negocia, não se conquista. É sentimento indomável que independe da vontade, e surge rompendo tudo, feito avalanche de lama, após ruptura de represa transbordante. Chega com dengo, ronronar, frêmito e gemido, mas também com dor, uivo, penação, martírio. A roleta gira e quem disse vermelho 17 poderá ganhar ou perder uma casa, uma vida, um amor. Cara ou coroa? No meio do campo de futebol, pouca ou nenhuma diferença faz, mas na vida, diante de uma encruzilhada, qualquer pessoa poderá sumir ou reaparecer. Quem opta por A perde B e vice versa. Há quem tente, mas, em geral não se pode ter tudo na vida, mas se pode ter muito. Ter vivido um amor – nem se pode dizer grande, porque amor que se preze é amor e pronto, não tem grandeza, pois se precisa dela para ser dimensionado, deixa de ser o sentimento maior – é privilégio. Amor é entrega, e quem ama dá tudo que tem, mas não permite entregar sua dignidade. O objeto de seu amor partiu, não o deixe levar seu último colo: choro solitário, digno, sem plateia, sem testemunhas. Console-se: quem amou, ama ou amará é ridículo ao falar de amor. Aqueles de alma desértica, que nem de longe suspeitam sobre o que seja amar, calem-se, sejam ridículos, mas não ridicularizem o que já é ridículo por sua natureza, como escreveu Fernando Pessoa. Analise friamente: o móvel de seu sentimento de doação incondicional foi embora e você chora em desespero como se lhe tivessem tirado o último naco de chocolate suíço? Gente é assim, se nunca amou, reclama, se ama chora quando deixado para trás. Quem consegue entender esse sentimento? Há quem espalhe amor e se lamente. É sentimental, sensível, ama e é amável. E por tragédia, nem sempre é amada. Então, afinal para que serve o amor romântico, além de dar combustível interminável aos poetas? “Amor é cristão/ Sexo é pagão/ Amor é latifúndio/ Sexo é invasão/ Amor é divino/ Sexo é animal/ Amor é bossa nova/ Sexo é carnaval” – Rita Lee; ou “Amor é fogo que arde sem se ver/ é ferida que dói, e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer” – Luís Vaz de Camões”; e “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure” – Vinicius de Moraes. Depois de os gênios opinarem, o silêncio tem de ser a palavra final.
