O assunto pode ser abordado sob várias óticas como situações históricas, cantigas sobre o adereço, ditados populares – “cada um sabe onde o sapato mais lhe aperta” –, ou dramas pessoais de não poder calçar, e assim, vamos a pé ou dentro de um veículo, em geral com algo nos pés.
Uma lei municipal no Rio de Janeiro, no fim do século XIX, obrigava a população a ir às ruas só de sapato, época em que poucos os usavam. Os escravizados andavam descalços e os alforriados tinham acesso a tal peça de vestuário. A intenção pós-Abolição era adotar hábitos civilizados, que, imediatamente separaram a sociedade em castas, pois os negros andavam de pé no chão e a elite ostentava sapatos finos importados da Europa. Ali se oficializou o fosso do racismo e do preconceito de classe, reforçado pela Lei dos Sapateiros e do controle social.
“A canção dos tamanquinhos”, de Cecília Meireles, me volta à memória, e termina assim: “E até mesmo, toc... toc.../ os que têm sedas e arminhos,/ sonham, toc... toc... toc.../ com seu par de tamanquinhos...”
Conheci uma proprietária de fazenda, que não se habituou a usar sapatos. Na infância seus irmãos os calçavam; ela não! Tinha pele clara, olhos escuros, cabelos lisos, e pés ásperos, largos, com rachaduras e portava certa agudeza intelectual. Nem as Havaianas suportava. Tinha duas filhas médicas, que clinicavam em São Paulo, e ia para lá de avião, duas vezes ao ano. Chegava ao aeroporto descalça e apenas para subir e ficar dentro do avião durante a viagem, obrigava-se a calçar um par de sandálias confortáveis. Sofria como se torturasse os pés em aperto, e mal chegava, já se descalçava. Pitoresca, mas a situação a constrangia.
Tem histórias de sapatos furados, fingir estar com o pé machucado, ir à escola descalço, passagens humilhantes, que hoje, pouco se vê.
“O Gato de Botas” era uma fábula que saia de um disco em minha casa. As botas eram mágicas e imensas. “Cinderela” era a princesa dos sapatinhos de cristal, cavalos-ratos, carruagem-abóbora.
“E a ponta de um torturante, bandeide no calcanhar” – São dois pra lá, dois pra cá – João Bosco e Aldir Blanc, não é sapato, mas o calo é um dos seus efeitos.
Com ironia se diz que a mulher faz tudo em cima de um salto alto. Mas vantagem mesmo é não o usar. Na China a mulher foi oprimida pelos “pés de lotus” – a redução dos pés –, até antes de 1911. Nessa situação a mulher mal conseguia andar. Ao nascer, a menina tinha seus dedos dos pés dobrados para baixo, em direção à planta e enfaixados para os pés não crescerem e, ficando deformados, as impediam de andar. Davam passinhos curtos apenas perto de sua casa. Simbolizavam uma classe privilegiada mantida sob vigilância.
A amputação do clitóris e o véu usado de determinada maneira são exigências em outros locais do globo, para além da amarração dos pés, mais duas maneiras de controlar o corpo da mulher.
Voltando aos sapatos, são bons adereços, além de proteger os pés, mas o melhor mesmo é tirá-los e andar na areia da praia sob o sol poente, em boa companhia. Descalçar é um prazer, e viajar é preciso!
