Os desafios atuais são muitos, desde fome, guerras e extremos climáticos, até mais prosaicos como escritores formando públicos leitores. Entre os mais vividos, com razoável grau de instrução, leitura fácil e curta será feita. Comprar livros, compram pouco, sendo fácil engavetá-los, enquanto outros fazem a leitura da obra e a comentam nas redes.
Há algum tempo, para romper com o ambiente protocolar que costuma cercar os lançamentos de livros, tidos como festa para intelectuais, migrou-se do auditório para o bar, um lugar alegre, descontraído, onde impera a informalidade. A impressão é que as etapas da apresentação serão respeitadas. Na chegada, o tom de voz é baixo, mas no decorrer das horas, o vozerio supera o esforço do cantor, que faz seu trabalho ao microfone. Quando o lançamento do livro vai acontecer de fato, o silêncio suplicado com veemência é desconsiderado, e quem gosta de discursos poéticos, e também da declamação de poemas, encontra-se com a frustração, porque quem deveria se calar fala alto. Deixo aqui meu protesto contra os conversadores.
Nada poderia reduzir o sucesso de uma noite inesquecível, ocasião em que aconteceu o lançamento de “Origami de Dezembro”, um livro de poemas na estreia de Gi Lages. Recentemente, participou da Antologia – livro coletivo – “Bordados Poéticos”, com mais cinco autoras e muito brilho.
Há tempos, estou atenta às produções dessa poeta, cuja sensibilidade vi ser transformada em lágrimas durante sua fala comovente. Sua qualidade poética mantém-se constante, garantindo um alto padrão. Doce e suave em um momento, em outro poderá recorrer a versos fortes e reveladores.
Sua arte poética atravessa o leitor e costuma convencê-lo de que o fato ali mostrado se trata de uma confissão, esquecido que está de que a ficção existe também nesse gênero literário.
No Sancho’s, a decoração voltada para a arte do origami, uma atividade que também faz parte da vida de Gi Lages, estava presente para enfeitar e encantar os apreciadores de Literatura. Bela e fotogênica arte, serviu como componente para fotos, e também como inspiração para os presentes. Deixo aqui os meus aplausos para o origamista Guilherme Peixoto, que a cada temporada tem se mostrado mais hábil em suas criações, com resultados artísticos preciosos.
“Embriaguez – Gosto da embriaguez que desmonta a realidade crua,/ do instante líquido que dilui verdades duras./ Na taça de vinho cabe um dia a mais,/ uma eternidade momentânea./ Gosto do sorriso rubro,/ das palavras molhadas, dos olhares de fogo/ das sensações que transbordam das taças/ e desaguam nas bocas, nas mãos, na pele – /sem desperdício./ Sentimento etílico – num desejo ébrio:/ mais um gole, por favor, que a lucidez não nos alcance./ Na garrafa, nem uma gota – mas a sede permanece./ No outro dia, embevecidos, nada se lembram, / mas o corpo insiste: repetir a dose”.
O carisma, o sorriso e o talento de Gi Lages encheram o bar de amigos que celebravam seu êxito. Com a amostra acima, convido-os a conhecer mais poemas e contos dessa escritora em tempo integral em “Origami de Dezembro".
