Mara Narciso

Olfato e gustação

Publicado em 06/07/2026 às 19:00.

Quando Joana Querubina soube acerca da encomenda, apressou-se em enviar um mensageiro para buscá-la. A casa era perto, e em poucos minutos saberia do que se tratava. Mal teve tempo de lavar a louça do café e tinha em mãos três pacotinhos de doce cortado em pequenos quadrados. Ao tê-los ao alcance do olfato, abriu para confirmar se era doce de amendoim. Eram pés de moleque. Estavam embalados em saquinhos de papel, à maneira de pipocas. Dois deles com manchas de gordura, e o terceiro sem elas. Pegou no armário um recipiente de vidro transparente, de boca larga e tampa de rolha. Por estar fora de uso, correu a lavá-lo com detergente, enxugá-lo delicadamente e então, despejou em seu interior o que já sabia que eram os conteúdos: doces sólidos. Os pés de moleque eram feitos com rapadura escura, farinhenta, sem passar pela fase de bater. Os amendoins eram torrados e moídos. Se há uma coisa que essa mulher gosta é de pé de moleque: é ver e comer. Por ser seu doce preferido, mesmo com jeito de doce em balcão de bar à beira da estrada, comeu dois. O outro tipo de doce, também em pedaços, tinha, em meio à face amorenada, um toque sutil de vermelho fechado. Não havia odor específico, apenas uma dureza difícil de vencer. Arriscou-se a avariar seu canino inferior. Venceu a resistência daquele alimento indeterminado, e lhe cravou os dentes laterais. Sentiu os fragmentos saborosos sobre sua língua úmida. Ali aconteceu algo inexplicável, um mergulho no tempo. A sensação doce indeterminada, de sabor suave, distante, vindo da aparência rústica, tinha algo que se diluiu em seu paladar e em seguida atravessou seu cérebro: como explicar aquilo? O que aconteceu ali, naquele instante, era poderoso, intenso e ao mesmo tempo difuso. Era marcante e fluido, sem assinatura, sem nome. Era um doce anônimo, cujo ingrediente principal estava ali em pequena escala, imperceptível para ser nomeado, mas de efeitos imensuráveis. Joana Querubina, dona de uma perseverança rara, vasculhou a mente e não encontrou na memória o motivo daquele sentir tão inesperado. Através de quem lhe deu o presente, soube, enfim, tratar-se de doce de banana. Até aí, nada entendeu. Após o próximo jantar, pegou outro pedaço do doce de banana, cheirou fundo e nenhuma revelação aconteceu. Retirou no dente um pedacinho daquela dureza. Deixou aquela pedra derreter-se em sua boca e, com a salivação pôde ter a mesma sensação da experimentação anterior, vindo à tona odor e sabor longínquos, e agora, repletos de amor, cuidado, toalha rendada sobre a mesa, casa enfeitada, docinhos macios de banana, enrolados pelas palmas das mãos de sua mãe, bolo com velinhas, guaraná, coleguinhas em volta a lhe cantar os parabéns. A partir de um sabor suave, advindo de um doce rústico, chegou um pacote completo com sua mãe jovem e bela, no apartamento simples no centro da cidade, mais a mágica da infância em embalagem caipira. A memória olfativa e gustativa tem essa propriedade, mais do que outros sentidos, trazer embalada saudade com gosto e cheiro de doce de banana e amor de mãe.

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