Mara Narciso

O mundo em que vivo

Publicado em 17/08/2026 às 21:12.

O momento atual é hostil a todos. Estar vivo é um milagre. O enfrentamento interno é nada se comparado ao perigo externo, onde a incompetência a tudo domina, com ares de superioridade.

Para o nosso gáudio, persistem os gênios da raça. O nível de excelência permanece no topo, enquanto vozes comuns descambam, não no horizonte, como diz o jargão popular sobre o pôr do sol, mas ao rés do chão. Quem mal acompanha os parabéns a você, quer reger a orquestra, e quem mal sabe coar um café, se sente doutor em gastronomia. E ainda inverte Pitágoras e o seu “sei que nada sei”, para “eu sei tudo”.

Consciências estão à venda, se as há. Se alguém sabe um pouco de quase nada, cobra para ensiná-lo. Tudo é monetizado, até abraço e traição social.

O mundo está péssimo e pior ficará. Vende-se a fé, pois há o dízimo, e pobreza virou relíquia do catolicismo. O negócio é ser próspero, mesmo que atropele o que estiver pelo caminho.

Está horrível, mas, ao contrário dos falsos profetas, nada sugiro para consertar o mundo, mesmo porque, a meu ver, o conserto se dará pela humanização, solidariedade, respeito, inclusão. Tenho ideologia de esquerda e sou canhota, e dia 13 – olha a coincidência! – de agosto foi o Dia Internacional do Canhoto, o oposto a destro.

Toda cautela é insuficiente para agir no mundo real, cheio de ciladas, assim como no mundo digital. Sem pegar no celular, o dispositivo começa a falar. Sabe de seus passos. Se comprar um creme com ácido hialurônico, como seu CPF gira pelo sistema, daí por diante haverá, a cada instante, uma publicidade de creme que revolucionará seu rosto, sua vida, e até mesmo sua conta bancária, no estilo perca 20 kg em uma semana, sem esforço. E muitos pagam para ver!

A superexposição é a norma no mundo da instantaneidade. Com um golpe de mestre, um anônimo vira subcelebridade. Começa em reality show por ser influenciador, em seguida faz curso de atuação – isso se o fizer – e vai para as novelas. O que não interessava a ninguém, depois disso, passa a interessar. Haja sol para tanta gente ficar. Disse Gonzaguinha: “há muito sabiá para pouca palmeira”, sem imaginar uma vida de cotoveladas por espaço, onde todos têm razão.

O ruim não é aparecer, é mentir, é cometer crimes dando-lhes o nome de “liberdade de expressão”; são hábeis em turvar a realidade e perguntar: onde está a verdade?

Milena dizia: “quem não pode com o pote, que não pegue na rodilha”. O que se vê é faltar rodilha para tantos desejosos de pegar o pote da fama e do poder.

A disputa por autoridade é um jogo indigesto, vazio de ética, cheio de mentiras e bajulação. Quem quiser governar precisa ser firme nos atos e negociador nas conversas. Abraçar um poderoso para conquistar mais poder é o que se percebe em todas as esferas. O mais é agarrar-se àquilo em que se acredita, e também no que se despreza, pois o discurso quer crescer as qualidades de seu lado e ampliar os defeitos do outro.

Quem nada tem a propor acaba por jogar bolinhas de gude no chão, por onde passará a cavalaria do inimigo. E assim escorrega e cai a humanidade!

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