Mara Narciso

Inventário metafórico

Publicado em 01/06/2026 às 19:00.

Abrindo a caixa de chavões vejo: o bem mais precioso que temos é a vida; enquanto houver vida, haverá esperança; sempre há tempo de ser feliz; sem saúde não somos nada; pra frente é que se anda; quem espera sempre alcança...

Um inventário metafórico é um balanço sentimental de memórias, sensações, emoções e afetos seus e de quem é importante para você. Trata-se de um exercício poético de catalogação, olhando-se para o mais íntimo do seu ser, para um levantamento de sua vida e dos seus traços de personalidade.

O que passou, passou, ou está a espreitá-lo? Figurinha repetida é cavalo encilhado que passa mais uma vez, ou é mera ilusão? Quando se diz, “aquela pessoa de antes, não existe mais”, fala-se a verdade? 

Conta-se sobre uma infância inesquecível, com um olhar faiscante. É lembrança real, ou lhe avivaram recordações? Na juventude namorou alguém especial que lhe despertou paixão por um longo período. Foi de fato tudo isso?

Outros floreiam uma história de tempos remotos com tal detalhamento, como por exemplo, ocorridos aos três anos de idade, hoje com 80 anos, que pode não ter acontecido daquela forma, ainda que a memória, assim como outra habilidade possa surgir de maneira diversa em cada pessoa.

Por que pesa olhar para trás? Recordar amplia coisas de modo inadequado? Dói lembrar-se das coisas boas, mas principalmente das ruins. A memória tende a destacar o que foi trágico, constrangedor, humilhante. A psicanálise poderá alterar esse sentimento.

Crianças e jovens não falam do tempo, a não ser do meteorológico, para praia, piscina, viagem, show, mas os maduros sim, e quanto mais velhos, mais se preocupam com o tempo decorrido.

Sabedores de que todos morrem, se deveria gastar melhor o tempo, coisa que nem sempre se consegue fazer dentro do parâmetro de cada um. E quando se vê que, pela lógica, resta-lhe pouco tempo, dependendo do que fez da própria vida, poder-se-á adquirir os mais diversos comportamentos.

Os que têm o cofrinho cheio e escassas lembranças do que seria “aproveitar a vida”, poderá ter um ataque de arrependimento, e se caso houver alguém por perto, este poderá receber uma enviesada terceirização de um fracasso que não é dele. Sente culpa? Vá chorar em Paris!

Os de cofrinho vazio, mas com o espírito repleto de bem-viver, transbordam em convívios afáveis, não perseguem os outros, nem se põem a cobrar coisas, nem a maltratar ninguém. Para que interromper uma fala tranquila, de forma cortante? Por que iniciar um comentário com a palavra não?

Uma velhice que transcorra em segurança financeira é mais fácil de ser transposta, até o momento final, porque os melhores tratamentos estão disponíveis, garantindo a necessária tranquilidade. 

Bom mesmo é não sentir culpa, preocupação e arrependimento, porque usou as oportunidades disponíveis, e realizou-se sob vários aspectos. Teve existência exitosa quando o inventário mostra uma vida bem vivida com lucros emocionais e afetivos. Muitos não conseguem se sentir assim na maturidade. Caso ainda haja tempo, não seja mais um desses. Previna-se!

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