Mara Narciso

Família de gatos

Publicado em 27/07/2026 às 19:00.

Conheci uma penca de gatos, uma família felina, há alguns meses, quando desapareceu Hanna, a gatinha de Elisane Amaral. Vendo seu sofrimento, e por ser a mascote moradora de um bairro vizinho, abri os olhos para ver a bichana, que conheci por fotos, para reconhecê-la, caso estivesse por aqui. Em uma manhã de chuva, vi uma gata (?) preta com a cara manchada de branco, acuada perto de uma folhagem, em minha rua, uma quadra adiante. Atentei a ela e, na volta, perguntei ao meu filho Fernando, se ele havia visto uma gatinha preta aqui por perto. Ele afirmou que sim. À noitinha fiz contato com Elisane, que pediu confirmação da permanência do animal em nossa rua. Fernando viu a gata no telhado da mesma casa. Então, a dona veio, e juntos fomos buscá-la, caso fosse ela.
 
Ficamos na calçada chamando pela fujona, e nem sinal de movimento no telhado. No entanto, algum tempo depois, surgiu na lateral, uma família de gatos, uns cinco ou seis, sendo um deles preto da cara branca, que poderia ser a gatinha sumida. Oferecemos água e ração, que a tutora trouxe e ficamos esperando. Fomos ao outro lado da rua para ter uma visão ampla da situação, clareando o telhado com a lanterna do celular. A família felina sumia e daí a pouco voltava. Nesse esconde-esconde, foi possível, mesmo na sombra, verificar a cara manchada de branco da gata preta, vindo a decepção: não é Hanna, garantiu Elisane, desapontada.  Voltamos para nossa casa e a imagem da frustração partiu para seu lar. Acompanhando pelas redes, soube, dias depois, para nossa satisfação, que a gatinha havia retornado.
 
Alguns meses se passaram e Pagu, nossa cachorrona cor de mel, grande, classuda, porte de rainha, de passadas elegantes e latido potente, feito um terremoto insistente e ameaçador, aprontou uma guerra no quintal. Aliás, três guerras em sequência, a partir da entrada de gatos em seu território. Vendo o drama do corre-corre e a iminência de sangue e morte, Fernando foi controlar a situação e salvar o gato da caçadora Pagu, ex-moradora de rua, que, quando chegou aqui comia raiz e caule de plantas, além de abrir buracos no jardim: incontrolável! Certa vez, foi um gato cinza, que lutou, e por fim, depois de quebrar vasos e plantas, fugiu. Outra vez foi um gato pardo, e depois, um gato manchado. Em cada investida, tentava-se a retirada de Pagu, sem sucesso. Então, abria-se o portão lateral, e incentivava-se o gato a sair por lá. Ou indicava-se o caminho do muro para a fuga, mas, por ser alto, colocava-se uma escada perto, para ver se o animal entendia, subiria nela e fugiria. Um sumiu pela escada e o mais recente saiu pelo portão lateral, atravessou a varanda e subiu no pé de araçá.
 
Pagu mudou seu plantão do quintal para a varanda e não parava de latir. Mas, o que vimos a seguir foi a mudança da família de gatos, já nossa conhecida, para uma greta entre o nosso muro do fundo, em meio à cerca elétrica e concertina, e o telhado do barracão vizinho, ali ficando calma, tranquila, com sono diurno e saída noturna.  Durante o dia, poucas vezes é vista, mas, ao fim do dia, sai para caçar. Escapa do esconderijo, atravessa o muro lateral, equilibrando-se entre fios e risco de choques elétricos, fica no muro do jardim e depois vai à rua. Tarde da noite, pode-se ver os gatos refestelados no passeio, em deleite, na segurança da madrugada para quem é gato, na esquina do quarteirão em que foram vistos a primeira vez. Retornam ao amanhecer.
 
Curiosamente, o comportamento destrutivo de Pagu transformou-se em um estranho modo sugestivo de instinto maternal. No fim da tarde, quando a família se desloca para fora da toca, e fica sobre a nossa varanda, apreciando a luz se reduzir, Pagu fica postada diante dela, inquieta, andando para lá e para cá, sem ferocidade, choramingando, em uma manifestação que, ao nosso ver, sugere atitude materna. É uma transmutação estranha para olhos humanos em guerra, mas não para o mundo animal, no qual espécies diferentes, se engalfinham, e adiante tornam-se cooperativas e até amigas, atitude impossível entre os humanos do século XXI.

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