Mara Narciso

É você, Cleonice?

Publicado em 20/07/2026 às 19:00.

Chamadas de origem desconhecida, persistentes, com uma frequência assustadora, a cada investida um número diferente, com o prefixo da cidade destino, vão atormentando dia após dia, entre nove e 18h – horário comercial. Não adianta bloquear, tirar o som, deixar sem vibração. O desprazer permanece, e a cada 15 minutos ou menos a tela se acende. Houve dia em que o telefone brilhou por 50 vezes. Mesmo com o dispositivo distante e ignorado era impossível não ver que a perseguição permanecia, e a bateria arriava. O número mestre, acionado por um robô, não aparecia na tela, apenas uma sequência aleatória de números, algumas vezes com a primeira metade igual. Que atitude tomar?
 
Quando o desconforto atingiu limites desesperadores, irritada, a dona do celular decidiu-se por atender e disse: Pronto! Do outro lado, uma voz robótica, que no passado se diria "biônica" respondeu: "É você, Cleonice?" A vítima retrucou, provocativa: "Sim!". E desligou. É claro que o assédio fechou seu cerco e as chamadas se duplicaram em insistência. A destinatária do tormento tentou ignorar o fato por vários dias. Adiante atendeu, e ao ouvir a mesma pergunta, disse não ser Cleonice. Soube que a estelionatária tinha dívidas na Loja Avenida, por isso resolveu ir à fonte. Entrou em uma fila de pagamentos, falou com a atendente, que chamou o Gerente.
 
A mulher explicou que o telefone acionado era dela e não de Cleonice que, de forma bandida, dera o número de um telefone alheio para se safar dos boletos. O rapaz foi gentil, fez contato com a Central de Cobranças, terceirizada e localizada em outro estado, anotou nome e dados, pediu desculpas pelo incômodo, e disse que seria necessário esperar alguns dias, até que o setor conseguisse retirar seu número do rol de maus pagadores. Satisfeita não ficou, mas estava no caminho certo. A perturbação persistiu, havendo dias em que quase não telefonavam, e em outros insistiam a ponto de enlouquecer a mulher. Esperava pelos seus telefonemas habituais e não podia acionar a campainha. Era exasperante. Deveriam pagar indenização por ato persecutório crônico.
 
As ligações pararam e veio o alívio que durou vários meses. No entanto, certo dia uma empresa de advogados de uma revendedora de veículos apareceu na tela de seu WhatsApp para cobrar o pagamento de um carro cujas prestações estavam acumuladas. Descreveram o caso de forma educada para não afugentar Cleonice, enquanto a vítima ficou calada. Refletiu que precisava provar não ser a devedora. Fotografou sua conta de telefone com seu nome e o número que era permanentemente chamado, borrou seu endereço e outros informes, anexou sua carteira de identidade e enviou no WhatsApp, escrevendo aos advogados: Agora que provei que o número de telefone é meu, mas não sou Cleonice, espero que parem de me incomodar. A atendente pareceu aceitar a explicação e a importunação interrompeu-se.
 
No entanto, os advogados voltaram à carga, e desta vez revelando o sobrenome da autora, que continua a comprar coisas com telefone da outra. Os cansados que se deitem. Os crentes que orem.

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