Ou seria como tartaruga ou caracol, carregando a casa sobre o corpo, ou, para ser mais dramático, com o mundo nas costas feito Atlas?
O negócio do ser humano é caminhar, circular, viajar, migrar, atravessar oceanos, continentes, e, em geral, voltar. E nesse caminhar, há também o carrear, levar coisas, incansavelmente.
Tanto é assim, que entre todas as diversões, quase todos preferem viajar. Os meios de transporte são prioridade em todos os tempos. Sigamos a pé, a cavalo, em carroças, diligências, bicicletas, canoas, barcos, navios, carro, avião, nave espacial. Em todas as épocas, há algo novo para locomoção. Na ficção, há décadas, existe a ideia do teletransporte holográfico, em que a projeção tridimensional faz parecer que a pessoa está em outro local. Ou o que mais surgir junto à vaidade e a ousadia humanas.
Cada família tem seu grande viajador, aquele que aceita todos os convites e alguns deles viraram folclore por estarem dispostos e pegar a mala e sair por aí. Os mais fanáticos têm a mala pronta para uma eventualidade – vai que surge alguém ávido para sair de imediato! E o viajador agarra sua mala e entra no veículo.
Aí entra a história da bagagem. Décadas atrás as pessoas pouco viajavam ao exterior, e não ficavam mudando para outro continente e depois, para mais outro. As famílias de hoje costumam ter alguém assim. Não quer apenas ir estudar em outro lugar, mas ficar mudando de cidade, e nela de domicilio, e em sua casa, nem os móveis têm sossego. A cama anda pelo quarto, quando é lugar espaçoso.
Então, vem a dificuldade de levar coisas e fazer tantas mudanças. Quem viaja coleciona souvenirs e quem muda precisa abrir mão de imóveis, móveis, objetos, roupas, quinquilharias e pessoas. O desapego é uma necessidade e, se durante a maior parte da vida houver acúmulo, na outra parte a bagagem deverá diminuir, até restar uma mochila nas costas.
A pouca bagagem chega a níveis extremos após uma desilusão, ou a um problema de saúde. É quase automático abrir mão de coisas após uma perda amorosa ou de uma pessoa querida. O que importa, o dinheiro minimiza, mas não pode comprar: reconquista completa da saúde, volta de alguém que partiu para sempre, ou um amor esfacelado.
Na rua todos estão carregando coisas. Os mais jovens levam filhos, a maioria carrega alimentos em sacolas ou comem na rua; os estudantes levam cadernos e livros em suas mochilas, fazendo barulho e mostrando alegria. Quando chove, os pedestres portam guarda-chuvas.
No elevador há, depois da última parada, cinco ocupantes, mas cabem oito ou 560 K. Três deles levam mochilas, o que ocupa o espaço de mais três que ali caberiam. De fato, as pessoas carregam tudo que poderá, de algum modo, vir a precisar. Isso lhes dá segurança, faça chuva ou faça sol.
Ninguém olha e nem fala com ninguém. Todos estão concentrados, silenciosos, em geral, sorriem mostrando satisfação, uma quase alegria. Em suas mãos, o onipresente, o insubstituível, o dominante aparelho de telefone celular, uma extensão da mão e do cérebro. Reguemos nossas mentes com leituras para que não atrofie.
