Nas últimas eleições presidenciais, naquele finzinho de ano triste e amargo, lembro de você me dizer que votou nele – e você sabe em quem – por medo do Brasil virar uma Venezuela. Na sala de estar, todos afirmaram ter votado nele. Quer dizer, uns disseram que não, mas um não bruxuleante. Todos tinham um motivo: medo do país degringolar, tira aquele partido vermelho do poder, dar chance para outra coisa.
Naquele momento, tive vontade de roer com os dentes a mobília e gritar. Porém, não o fiz. Fui polido. Bem, não sei se viramos uma Venezuela, como você tinha me dito, mas as coisas não andam tão legais quanto você me disse (e prometeu) que iriam ficar. Naquele dia, ouvir aquilo de você fez meu coração doer um pouco, mesmo te amando tanto, mesmo a gente sendo da mesma família. Não deixei de te amar, claro. Não apaguei seu número da minha agenda. E não tirarei sua cadeira cativa dos meus afetos.
Se não me falha a memória, 2018 foi meu último ano como mesário. Meu Deus, como aquilo foi horrível. Vi tudo de perto. As pessoas com bandeiras de um Brasil que detesto lembrar a existência. Um país verde-amarelo que só existe em um pensamento cafona, como diria Fernanda Young. Pessoas cafonas, bandeiras cafonas, palavras cafonas. Aquelas palavras que eu não consigo esquecer: agora, vocês terão que andar na regra. Ouvi isso em um bar. Dois homens bebendo, comemorando o nascimento de um novo Brasil. Será que devo escrever Brasil com Z para diferenciar do Brasil que um dia eu conheci? Brazil. B-R-A-Z-I-L.
Um novo país que já nasceu morto. Oco. Vazio. Sem graça. O nascimento que já prenunciava a morte. Estranho. Quando ouvi você dizer que nosso país seria melhor, não esperava que isso tudo fosse acontecer. Quer dizer, não esperava que fosse acontecer todos os antônimos possíveis de melhor. Tentei acreditar na sua fala. Tentei, porque te gosto tanto, sangue do meu sangue. Sei que você não é uma má pessoa. Sei também que não quer nenhum tipo de desgraça. Tem uma frase bíblica que gosto muito e acho que cabe nesse momento, em relação a tantas coisas: “Tu chegarás até este ponto e daqui não passará”.
Mas esse “tu” não é sobre você. É sobre ele. E você sabe quem.
