Luiz Cláudio de Almeida BarbosaPhD em Química, professor e pesquisador na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), escritor

Invenções que quase destruíram nosso último pé de couve

Publicado em 08/05/2026 às 19:00.

Toda invenção carrega consigo algo que ainda não sabemos medir.

Nunca me esqueci do primeiro experimento que fiz em uma disciplina de biologia quando era calouro na universidade, na década de 1970. Tratava-se de um experimento simples de biologia populacional, que demonstrava o polimorfismo induzido pelo ambiente. Para isso, preparei uma caixa de tela fina e, dentro dela, coloquei um pé de couve infestado com pulgões, pequenos afídeos sugadores. No decorrer do semestre, os pulgões se reproduziam velozmente e, em pouco tempo, o pé de couve já não tinha espaço para sustentar aquela população. Como eram extremamente pequenos, não podiam simplesmente sair em busca de novos ambientes. Ainda assim, a natureza, em sua notável capacidade de adaptação, dotou-os de um mecanismo engenhoso: diante da superpopulação, parte deles desenvolvia asas. E passava a se deslocar a maiores distâncias, encontrando novos “pés de couve” capazes de sustentar as gerações seguintes. Trata-se de um exemplo clássico de polimorfismo.

O ser humano, por sua vez, ao longo de sua história, vem desenvolvendo tecnologias que ampliaram sua capacidade de sobrevivência e, consequentemente, sua população. Entre elas, a química vem desempenhando papel central, contribuindo para a melhoria da qualidade e o aumento da expectativa de vida. No entanto, como já discutido em matéria sobre o uso do tetraetilchumbo na gasolina, há inúmeros exemplos que revelam um padrão menos confortável. Os clorofluorcarbonetos, conhecidos como CFCs, revolucionaram a refrigeração ao oferecerem uma alternativa aparentemente segura; apenas anos depois se compreendeu seu papel na destruição da camada de ozônio. De modo semelhante, o DDT foi celebrado no combate a pragas, mas sua persistência ambiental afetou cadeias alimentares inteiras. Os plásticos transformaram a indústria e o consumo, mas hoje figuram entre os maiores desafios ambientais, sobretudo pela disseminação de microplásticos. Outros exemplos incluem o amianto, posteriormente associado a doenças graves, a talidomi
da, com efeitos devastadores no desenvolvimento embrionário, e os fertilizantes sintéticos, fundamentais para a agricultura, mas responsáveis por processos de eutrofização.

Todos esses casos representam tentativas de extrair do planeta o máximo de benefícios possíveis, como se, à semelhança dos pulgões, pudéssemos migrar para novos “pés de couve” quando os recursos se esgotassem, ignorando que, no nosso caso, não há outro ambiente disponível.

Esses exemplos mostram que a trajetória da inovação tecnológica revela um padrão recorrente. À medida que o conhecimento científico se aprofunda, evidências adicionais emergem, demonstrando que muitas soluções inicialmente adotadas carregavam efeitos adversos invisíveis em um primeiro momento. O que antes era visto como progresso passa a ser reinterpretado como fonte de novos problemas, alguns de grande escala e difícil reversão.

Esse fenômeno não decorre apenas de falhas individuais, mas da própria natureza do conhecimento científico, sempre provisório e incapaz de antecipar integralmente os efeitos de intervenções em sistemas complexos, cujas consequências frequentemente só se tornam visíveis ao longo do tempo. Ainda assim, ele expõe a tendência de privilegiar benefícios imediatos em detrimento de análises mais abrangentes, mesmo quando já se reconhecem incertezas relevantes, sobretudo em contextos de competição econômica e pressão por resultados.

Diante desse histórico, não se trata de questionar a importância da ciência, mas de refletir sobre a forma como suas aplicações são conduzidas. O conhecimento científico continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para melhorar as condições de vida, mas sua utilização exige prudência, responsabilidade e capacidade de antecipação. O nosso “pé de couve” é um só.

Antes que o próximo invento nos ofereça, mais uma vez, a ilusão de uma solução definitiva, esses exemplos devem servir como convite à reflexão sobre o uso responsável dos recursos de que dispomos. Em um cenário de crescimento populacional contínuo, não haverá asas que nos permitam escapar. Talvez a questão mais urgente não seja como avançar mais rapidamente, mas como avançar sem ignorar os limites do único sistema capaz de sustentar a nossa própria existência.

Compartilhar
Logotipo O NorteLogotipo O Norte
E-MAIL:jornalismo@onorte.net
ENDEREÇO:Rua Justino CâmaraCentro - Montes Claros - MGCEP: 39400-010
O Norte© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por