Luiz Cláudio de Almeida BarbosaPhD em Química, professor e pesquisador na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), escritor

Do ferro dos meteoritos às montanhas de Minas Gerais

Publicado em 17/04/2026 às 19:00.Atualizado em 23/04/2026 às 13:40.

Quem percorre as estradas de Minas Gerais dificilmente deixa de notar as marcas profundas deixadas pela mineração: montanhas recortadas, encostas expostas, paisagens que mudam rapidamente diante dos olhos. Em alguns casos, essas transformações não são apenas visuais, mas trágicas. Os desastres do rompimento das barragens de Mariana e de Brumadinho custaram muitas vidas e deixaram cicatrizes duradouras no território e na memória do país. Ainda assim, essa relação entre o ferro, a riqueza e seus custos não é recente — ela acompanha a própria história da humanidade.

O ferro está presente na trajetória humana há milênios. Diferentemente do ouro, raramente ocorre em estado nativo, pois reage com oxigênio e água, formando óxidos estáveis como a hematita (Fe₂O₃) e a magnetita (Fe₃O₄). Alguns dos primeiros objetos de ferro conhecidos datam de cerca de 2.900–2.500 a.C., no Egito Antigo. Um exemplo fascinante é a adaga do faraó Tutancâmon, cujo ferro contém cerca de 10% de níquel, indicando origem meteórica. Essa resistência à corrosão antecipa, de certo modo, o princípio dos aços inoxidáveis modernos, nos quais elementos como o cromo — e também o níquel — promovem a formação de uma fina camada de óxido na superfície, capaz de se reconstituir quando danificada e impedir a progressão da oxidação. Antes da metalurgia, o ferro já era usado como material raro e valioso, muitas vezes associado ao divino.

Se no passado o ferro era raro, hoje sustenta uma das principais atividades econômicas do Brasil. Minas Gerais exporta cerca de US$ 40 a 45 bilhões por ano, sendo o minério de ferro o principal produto da pauta estadual, concentrado no Quadrilátero Ferrífero e responsável por milhares de empregos.

A revolução do ferro ocorreu por volta de 1.200–1.000 a.C., com técnicas de redução em fornos que produziram um metal mais abundante e resistente que o bronze, transformando ferramentas, armas e a organização das sociedades. Ao longo dos séculos, sua metalurgia evoluiu com o aperfeiçoamento do forjamento e o surgimento dos primeiros altos-fornos, permitindo maior controle sobre a qualidade do metal. Já na Revolução Industrial, iniciada na segunda metade do século XVIII, o desenvolvimento de novos processos de produção possibilitou a fabricação em larga escala de ferro e aço, tornando-os fundamentais para ferrovias, pontes, edifícios e máquinas, e consolidando seu papel como base material da modernidade.

No Brasil, a exploração intensificou-se no século XX, impulsionando o crescimento, mas gerando passivos ambientais: desmatamento, contaminação hídrica, alteração de relevo e barragens de rejeitos — lama tóxica resultante do beneficiamento, cuja liquefação sob pressão provocou as tragédias de Mariana e Brumadinho, evidenciando fragilidades de gestão e fiscalização.

Nos últimos quinze anos, tenho viajado quase semanalmente entre Belo Horizonte e Viçosa, e o que pude observar é a rapidez impressionante com que a paisagem foi transformada nesse período. Literalmente, algumas montanhas desapareceram, e tenho a sensação de que Minas Gerais, ao menos em certas regiões, caminha para se tornar uma terra cada vez mais plana. 

Após milênios de aperfeiçoamento técnico, o desafio contemporâneo não é extrair mais, mas reconfigurar a engenharia de rejeitos. Não podemos permitir que a lógica de curto prazo destrua as condições que sustentam a própria vida. Se persistirmos nesse ritmo, as montanhas de Minas serão apenas memórias ilustradas em livros de futuras gerações. Desde Tutancâmon, o ferro molda civilizações; cabe-nos decidir se continuará a moldá-las, ou se, finalmente, aprenderemos a moldá-lo.

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