Luiz Cláudio de Almeida BarbosaPhD em Química, professor e pesquisador na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), escritor

Agroecologia, plantas medicinais e o futuro da saúde no Brasil

Publicado em 03/07/2026 às 19:00.

Muito antes dos medicamentos produzidos em laboratório, plantas medicinais já faziam parte do cotidiano de praticamente todas as civilizações. O uso dessas espécies constitui uma tradição compartilhada por povos de todos os continentes, incluindo as populações originárias do Brasil e das Américas. Esse saber ancestral, associado ao tratamento de diversas condições de saúde, mantém grande relevância até os dias atuais. No entanto, com o desenvolvimento da indústria de fármacos sintéticos ao longo do século XX, parte desse conhecimento foi desvalorizada, colocando em risco uma importante fonte de medicamentos de origem natural.

Com o objetivo de contribuir para a preservação desse patrimônio, pesquisadores brasileiros têm se dedicado ao estudo e à conservação de plantas medicinais da biodiversidade nacional. Um exemplo é o artigo publicado na Revista Brasileira de Agroecologia, assinado pela professora Maria das Graças Lins Brandão e colaboradores. O estudo lança luz sobre um paradoxo: embora o Brasil concentre a maior diversidade vegetal do planeta, ainda aproveita muito pouco essa riqueza biológica no desenvolvimento de medicamentos e na formulação de políticas públicas de saúde. Em outras palavras, o Brasil ainda explora pouco aquilo que brota em seu próprio território.

Os autores mostram que, até meados do século XX, plantas medicinais nativas eram amplamente utilizadas pela população e pela indústria farmacêutica nacional. Espécies como guaco, maracujá, espinheira-santa, barbatimão e quebra-pedra figuravam em antigas edições da Farmacopeia Brasileira e integravam a produção de medicamentos. Esse cenário começou a mudar ao longo da segunda metade do século XX, em decorrência da industrialização, da urbanização, do desmatamento e da crescente predominância da indústria farmacêutica. Como consequência, muitos saberes tradicionais foram desvalorizados, e o país passou a depender cada vez mais de espécies exóticas e de insumos importados.

O estudo identifica 27 espécies medicinais nativas que tiveram uso industrial no Brasil até 1995. Muitas ocorrem em biomas ameaçados, como Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, e algumas estão oficialmente classificadas em risco de extinção. Apesar do longo histórico de uso medicinal, a maioria dessas plantas não conta hoje com fitoterápicos registrados.

A regulamentação dos fitoterápicos no Brasil teve um marco em 1995, quando passou a ser exigida a comprovação de eficácia, segurança e qualidade. Embora necessária, essa medida tornou seu desenvolvimento mais longo e oneroso. Passados trinta anos, poucas espécies nativas alcançaram registro e relevância comercial. A erva-baleeira constitui um dos raros exemplos de sucesso, ao dar origem ao anti-inflamatório Acheflan®, desenvolvido por um laboratório nacional.

Posteriormente, a Anvisa passou a reconhecer os Produtos Fitoterápicos Tradicionais, cuja eficácia pode ser comprovada pelo uso continuado. A medida, entretanto, beneficiou principalmente plantas exóticas, enquanto muitas espécies brasileiras permaneceram à margem das políticas públicas.

Nesse contexto, a agroecologia é apresentada como eixo estruturante da produção de fitoterápicos. Mais do que um modelo produtivo, ela integra ciência, conservação ambiental e conhecimentos populares. Agrônomos, técnicos agrícolas, extensionistas e agricultores familiares desempenham papel fundamental no desenvolvimento de sistemas de cultivo sustentáveis, capazes de garantir qualidade da matéria-prima e conservação dos ecossistemas.

O Brasil dispõe de competência científica consolidada em áreas como Química, Farmacognosia e Etnofarmacologia, além da experiência de agrônomos e agricultores no desenvolvimento de sistemas produtivos adaptados às diferentes regiões. Apesar desse potencial, ele permanece subaproveitado na transformação da biodiversidade em inovação farmacêutica e benefícios para a população.

Valorizar pesquisas nessa área significa reconhecer que a biodiversidade é também um ativo científico, agrícola, cultural e estratégico. Significa integrar a ciência do laboratório à ciência do campo, fortalecendo a soberania sanitária, a agricultura familiar e a bioeconomia nacional.
 
Para saber mais: BRANDÃO, Maria das Graças Lins et al. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 21, n. 1, 2026.

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