Luiz Cláudio de Almeida BarbosaPhD em Química, professor e pesquisador na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), escritor

A química invisível da máquina de lavar roupas

Publicado em 17/07/2026 às 19:00.

A máquina de lavar roupas é um dos eletrodomésticos mais presentes na vida moderna. Milhões de pessoas a utilizam diariamente sem imaginar que, em seu interior, ocorrem processos químicos e microbiológicos muito mais complexos do que aparentam.

Pela minha própria experiência, e em conversa com amigos, poucos de nós higienizamos corretamente a máquina conforme as recomendações do fabricante. Como consequência, às vezes as roupas saem aparentemente limpas, mas sem o cheiro de frescor esperado, e a própria máquina começa a apresentar manchas escuras, que muitos desconhecem serem causadas por microrganismos acumulados em diversas de suas partes. A lógica é simples: afinal, se a máquina está constantemente em contato com água e detergente, por que precisaria ser limpa? Não bastaria passar um pano após o uso?

Em um artigo recente publicado na revista Antibiotics, pesquisadores ingleses reuniram resultados de dezenas de artigos sobre os processos químicos e microbiológicos que ocorrem nas máquinas de lavar, incluindo a formação de biofilmes, o surgimento de maus odores e o papel dos detergentes. Por razões ambientais, econômicas e também por mudanças nos hábitos de consumo, tem havido nos últimos anos uma tendência ao emprego de ciclos de lavagem em temperatura ambiente. Nessa condição, parte dos microrganismos presentes nas roupas pode sobreviver ao processo de lavagem. A sobrevivência desses microrganismos, associada ao acúmulo de resíduos orgânicos ao longo dos sucessivos ciclos de lavagem, favorece a formação de biofilmes nas máquinas, responsáveis pelas manchas escuras em partes do equipamento, assim como pelo mau cheiro das roupas.

O processo de formação desses biofilmes, onde comunidades de bactérias e fungos ficam protegidas, é complexo e se inicia com o depósito de resíduos orgânicos, minerais e até componentes dos detergentes em diferentes partes da máquina. Com o tempo, essas substâncias formam uma fina película aderida às superfícies internas. Trata-se de um fenômeno essencialmente químico. Moléculas orgânicas adsorvem-se às superfícies plásticas, metálicas e de borracha, modificando suas propriedades químicas e físico-químicas. Em outras palavras, antes mesmo que as bactérias apareçam, a química já preparou o terreno.

Essa película cria condições favoráveis para a adesão de microrganismos. Uma vez fixados, eles passam a produzir substâncias poliméricas, como polissacarídeos, glicoproteínas e ácidos nucleicos, que funcionam como uma espécie de cola biológica, formando estruturas conhecidas como biofilmes. Esses biofilmes se desenvolvem em locais constantemente úmidos, como as borrachas de vedação das portas e os compartimentos destinados ao detergente. Longe de serem uma exceção, os biofilmes constituem a forma predominante de organização das bactérias na natureza.

Esses microrganismos metabolizam componentes do suor, da gordura humana e de outros resíduos orgânicos, produzindo compostos orgânicos voláteis responsáveis pelos maus odores. Entre eles estão amônia, compostos sulfurados, cetonas e diferentes ácidos orgânicos. São essas moléculas que podem fazer com que roupas aparentemente limpas não transmitam a sensação de frescor esperada.

Essas mudanças refletem um importante avanço do ponto de vista da sustentabilidade. O desafio agora é desenvolver detergentes e programas de lavagem capazes de conciliar economia de água e energia com a remoção eficiente de resíduos orgânicos e o controle da formação de biofilmes.

Nesse contexto, a recomendação de higienizar periodicamente a máquina ganha sentido. Produtos de limpeza recomendados pelos fabricantes, como a água sanitária, não atuam apenas eliminando microrganismos. Como agentes oxidantes, ajudam a degradar resíduos orgânicos acumulados nas superfícies internas, dificultando a formação de biofilmes e reduzindo a produção das moléculas responsáveis pelos maus odores.

A máquina de lavar não é apenas um equipamento doméstico. Ela também é um pequeno ecossistema onde a química e a microbiologia interagem continuamente. Compreender esse processo ajuda a explicar por que a manutenção periódica recomendada pelos fabricantes não é um mero detalhe, mas parte importante do funcionamento adequado do sistema.
 
Para saber mais: Verran et al. Antibiotics, v. 13, 1227, 2024.

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