Todo concerto é alcoolizado. Os instrumentos em linhas de exuberância orquestrada expressam suas próprias convicções; vociferando o ato de urgir pela paisagem visual construída. A cada qual reserva-se uma intensa sobriedade, apenas no ato de esperar por sua vez em tocar qualquer tom ou arranjo.
Fato é que os que estão munidos de sobriedade são os ouvintes. Ou nem todos. Haja visto que no ébrio concerto, os que embebedam da própria expectativa e euforia por vislumbrar a música sob a interface viciada pela embriaguez, acabam por conjecturar em suas próprias perspectivas um ponto de vista de incongruência com tudo, qual seja, a teimosia característica de um bêbado.
Afinal, não há sentido em concordar com tudo, quando, no auge das misturas dos elementos tonais e de percussão, vê-se entregar pelos musicistas o potencial conflitante, típico de uma orquestra, que apenas indica que há uma constante briga entre os instrumentos, por isso a orquestra é bêbada.
A eletrizante condução da solene interpretação dos artistas que orquestram o concerto faz com que os ébrios ouvintes sintam-se parte daquilo. Seja no passado, no presente ou no futuro. Afinal, em tudo há uma orquestra. E a depender da situação, na condição de ouvintes poderemos:
Ser o que pede a todos que calem suas bocas, para que possa concentrar ao máximo nas suas próprias percepções.
Adormecer e ter notícia da riqueza tonal perdida no curso de intensa sonolência, ou vingar-se dos devaneios tolos pretéritos, tendo a experiência vívida da certeza da imensidão dos veraneios gloriosos futuros.
Fato é que, a cada momento, nas orquestras que nos são apresentadas, sempre haverão “eles”, e bem sabemos quem são “eles”, eles estão por aí, militando a própria convicção, e eles, no sentido figurado e principalmente no fático, poderão ser os inimigos, ou os melhores amigos, tudo isso, vai depender do quão ébrios são eles, e o quão ébrios somos nós.