Pedro MartinsEscritor, Ciências Jurídicas e Agronômicas

Bilocação

Publicado em 17/01/2023 às 22:27.

Muitas vezes nos deparamos com casos de pessoas que são agraciadas com potencialidades ou oportunidades sem que as mereçam. Isso é comum... Esta estória constitui mais um caso desse fenômeno.  

Jairo é um homem que tem o poder da bilocação. Pode estar em dois locais ao mesmo tempo. Mas, enquanto ele usa esse poder, não pode saber onde está seu par, e tão somente descobre o que envolveu a travessia de seu igual quando finaliza uma “sessão” de seu poder. Ele tinha o controle sobre o início e o fim dessas jornadas.

Vivia a vida utilizando essa sua potencialidade para enganar as pessoas. Sacrificava seus momentos de foco no cotidiano como o trabalho, relacionamentos e outras situações corriqueiras para dispersar sua atenção.  

Enquanto uma versão de si se encontrava nos ambientes de afazeres, a outra se encontrava “farreando” por aqui e ali.

Mal sabia ele que perdia tempo. Ninguém sabia que ele tinha esse poder, mas todos desconfiavam de sua personalidade. Dizia para uns que estava trabalhando, mas logo era flagrado em algum canto inóspito da perdição – um bar, um cabaré ou, até mesmo, uma festa. Sempre foi tachado de mentiroso, e nunca considerado como um prodígio da natureza.

Mas assim era melhor. As pessoas não deveriam saber que ele estava por todos os lugares ao mesmo tempo, ou poderia ser sequestrado para ser estudado por entidades governamentais. Afinal, sua trajetória estava marcada pelo sobrenatural. Mas a seleção natural não esperaria para fazê-lo cair no próprio abismo que criava. Essa vida desregrada seria seu “calcanhar de Achilles”.

Apressado e nada educado – esse era o Jairo. E, certa vez, quando estava bêbado, dirigia pela cidade, escutando músicas características de sua cultura catrumana moderna – era um boêmio e escutava o melhor que havia de piseiro e sertanejo. Mal podia esperar para correr por todas as ruas e becos de sua cidade. De repente, acidentalmente, atropela um indivíduo, e foge do flagrante.

Um jacu, mesmo. Acabara de se matar. Atropelou seu “outro eu”; que também não poderia esperar um carro para atravessar a rua. Ambas as suas versões eram insolentes, ansiosas pretensiosas e prepotentes, e nunca deixariam que alguém as desafiasse. Pena que ele foi desafiado por si mesmo, e o final dessa história custou sua vida. Seu igual faleceu; e assim, Jairo também foi para o além.

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