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Quinta-Feira,3 de Abril
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O dia é delas, mas o papo é com eles

Guilherme Ribeiro*
Publicado em 07/03/2025 às 19:00.

No Dia Internacional da Mulher, a maioria das mensagens é direcionada a elas: homenagens, flores, elogios, reforços sobre os direitos adquiridos e o caminho longo que ainda temos pela frente enquanto sociedade. Mas hoje, eu gostaria de conversar com os homens. Porque, enquanto celebramos as conquistas femininas, precisamos refletir sobre o nosso papel e as nossas ausências nessa história.

Lembro-me de uma tarde qualquer, há alguns anos, observando meus filhos brincarem de futebol. Calma, você já vai entender por que preciso contar essa história. Entre risadas e disputas acaloradas, fiquei pensando em como moldar neles a empatia e o respeito desde cedo, antes que a vida adulta os alcançasse. Queria que crescessem homens diferentes, mais atentos, mais conscientes.

Chamei-os para perto. Entre protestos e promessas de histórias incríveis, eles se sentaram comigo. Queria compartilhar algo valioso, algo que aprendi ao longo dos anos, principalmente com as mulheres que conheci — dentro e fora do meu consultório.

Lembrei-me de uma paciente, Olívia, que chegou a mim não apenas com o desejo de mudar a própria aparência, mas carregando o peso de uma sociedade que insiste em ditar como o corpo de uma mulher deve se parecer. “Doutor, eu só queria me sentir bonita de novo. Estou cada vez mais velha e feia”, ela disse, e seu olhar denunciava anos de críticas e autocríticas. Eu me perguntei quantas vezes, mesmo sem perceber, contribuímos para essa pressão ao perpetuar padrões e comentários desnecessários.

Contei aos meus filhos de forma simples: “Sabe quando alguém na escola caçoa do cabelo ou do corpo de uma menina? Às vezes, essas pequenas palavras crescem e machucam mais do que podemos imaginar.”

Outra lembrança veio à tona: uma jovem mãe, exausta, que dividia seu tempo entre as demandas de um bebê recém-nascido e as cobranças de uma sociedade que espera que ela volte à forma física em tempo recorde. Conversei com eles também sobre como, muitas vezes, a voz masculina é mais ouvida — não porque seja mais sábia, mas porque o mundo ainda carrega resquícios de uma cultura patriarcal enraizada. E que o verdadeiro privilégio não é manter esse lugar, mas usá-lo para amplificar vozes femininas, para criar pontes e derrubar muros.

No final, deixei um desafio para meus filhos e, hoje, estendo-o a você, homem que lê essas palavras: neste mês dedicado às mulheres, que tal ir além dos presentes e das homenagens protocolares? Que tal praticar a escuta ativa, repensar comportamentos e, principalmente, conversar com outros homens sobre isso? 

Pode parecer simples, mas, na prática, exige mais do que apenas ouvir. É preciso se despir de julgamentos, abrir mão de respostas prontas e praticar o acolhimento verdadeiro, aquele que abraça, compreende e respeita. É oferecer visibilidade às histórias e às vivências que muitas vezes passam despercebidas aos homens.

Naquela conversa franca entre pai e filhos, meu desejo foi que anotassem no coração algo para nunca ser esquecido: o respeito e a igualdade não são apenas presentes de ocasião. São atitudes diárias que constroem uma sociedade mais justa e inclusiva para as filhas e filhos de todos.

*Cirurgião plástico

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