Exercício da cidadania

Fernando Shayer*
Publicado em 23/06/2022 às 23:00.

Ao que tudo indica, este ano será mais um de muita polarização no Brasil. Direita? Esquerda? Centrão? Essas questões ocuparão, evidentemente, uma grande parte das conversas (e, infelizmente, das brigas) que acontecerão em nossas casas, com nossos amigos e familiares. Nossos filhos estarão expostos a tudo isso. Qual o papel da escola nesse processo? E o nosso?

Em 500 a.C., na época de Confúcio, a educação tinha como objetivo informar os jovens sobre os usos e costumes milenares da China antiga. No Japão, muitos séculos depois, a educação passou a incluir também a formação nos deveres familiares. Em Atenas, a educação servia para formar governantes; em Esparta, para formar guerreiros.

O artigo 205 da Constituição Brasileira de 1988 é muito claro sobre os objetivos da educação no Brasil: “o pleno desenvolvimento do ser humano, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. A Constituição não fala em formar jovens que concordem com os ideais da direita, da esquerda ou do centro. Também não prescreve valores conservadores ou liberais, mas preparar os jovens para o exercício da cidadania.

Antes de tudo, o exercício da cidadania consiste no processo contínuo pelo qual o indivíduo constrói o bem comum, que vai além do bem individual, em conjunto com os outros indivíduos, exercendo seus direitos e cumprindo suas obrigações. O exercício da cidadania, numa sociedade democrática e em que haja a harmonia social, como a prescrita pela Constituição, presume o diálogo construtivo. Não a concordância, mas o respeito pelas opiniões divergentes.

Não nascemos sabendo como ter um diálogo construtivo. Quando afirma que a educação deve “preparar para o exercício da cidadania”, a Constituição prescreve um papel ativo à escola no desenvolvimento dessas competências. Ensinar os estudantes a dialogarem construtivamente com o objetivo de construírem o bem comum é, no Brasil, também papel da escola.

Num ano como o de 2022, promover discussões políticas na sala de aula é uma enorme oportunidade de aprendizagem e engajamento dos estudantes. Ao fazer isso, no entanto, a escola e o professor devem ter um enorme cuidado para ensinar os jovens a manterem um debate de ideias de alta qualidade, em que eles saibam contrapor os argumentos de lado a lado, respeitando visões favoráveis e contrárias.

O objetivo constitucional da Educação no Brasil é justamente esse: ensinar os alunos a desenvolverem as competências associadas ao pensamento crítico e à comunicação, que são fundamentais ao futuro exercício da cidadania.

*Cofundador e CEO da Cloe, plataforma de aprendizagem ativa

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