Brasil mais depressivo

Sarina Occhipinti*
Publicado em 28/07/2022 às 23:34.

A Pesquisa Vigitel 2021 identificou um preocupante aumento nos casos de depressão no Brasil: 11,3% dos brasileiros receberam diagnóstico médico da doença. A frequência foi maior entre as mulheres (14,7% das brasileiras), contra 7,3% dos homens. Somados os grupos, mais de 30 milhões de pessoas sofrem da doença.

Essas estatísticas, segundo a Organização Mundial de Saúde, colocam o Brasil na ponta do ranking de países com mais depressivos no mundo. Podemos interpretar este cenário como crítico, uma vez que a depressão é doença severa e de tratamento a longo prazo.

A depressão é um transtorno psíquico causado pela complexa interação entre fatores biológicos, psicológicos e ambientais, podendo ser também secundária ao uso de alguns medicamentos ou transtorno de dependência química. Há cura, mas, para tratarmos, precisamos de um trabalho muito além do medicamentoso.

Nas Américas, sete em cada dez pessoas com esse tipo de transtorno não recebem o tratamento necessário. Nesta margem, dúvida recorrente é quanto ao tratamento adequado. Há muitos debates sobre uso de antidepressivos e acompanhamento psicoterapêutico, mas o consenso é que quem sofre de depressão jamais pode ficar distante dos olhos dos especialistas.

Baseado nesta análise, lhes digo que a procura por tratamentos para depressão muitas vezes é dificultada pela negação da doença, pela crença de que os sintomas são normais e passageiros, pela falta de apoio de amigos e familiares e pelo medo do preconceito e dos estigmas associados ao transtorno.

Além disso, outras doenças devem ser investigadas antes de se indicar o uso de antidepressivos. 

Alterações hormonais, por exemplo, podem confundir o médico na hora do diagnóstico correto. A queda dos níveis de alguns hormônios em mulheres e homens, que estão envelhecendo, pode causar angústia, falta de motivação, humor diminuído, desprazer pela vida, sintomas típicos de depressão. Mulheres na menopausa apresentam melhora desses sintomas com terapia de reposição hormonal adequada e homens com baixos níveis de produção de testosterona recuperam o humor e a energia com o uso do hormônio.

Outra alteração endócrina que pode simular sintomas depressivos é o hipotireoidismo, que pode ocorrer a qualquer idade e na maioria das vezes é corrigido de forma simples, com a indicação do hormônio tireoidiano.

Enfim, antes mesmo do tratamento, a avaliação clínica e a investigação exaustiva das causas é de suma importância para o paciente receber os cuidados devidos.

Sentir-se mal nunca é normal, procure ajuda.

*Médica com especialidade em Clínica Médica, pós-graduada em Endocrinologia

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