O TREM DA LEITURA

Vitrine Literária / 30/01/2008 - 10h28

O livro que hoje iniciei a sua leitura merece três crônicas distintas. Isso não obstante as apresentações já elaboradas pelos seus prefaciadores: Antônio Augusto Souto (poemas), Amelina Chaves (crônicas) e Vanda Lúcia Horta Moreira (artigos jurídicos). É que o autor percorreu caminhos vários explorando toda a sua capacidade de criação literária com a intimidade de um mundo imaginário. O livro em questão é “Leia o Trem”, uma obra literária polivalente que traz em suas páginas os vestígios da literatura contemporânea brasileira. Também é um livro que se lê de ponta a ponta, com renovado interesse em cada poema, em cada crônica e em cada artigo jurídico, ora pungentes, ora graciosos sobre uma sociedade em estado de renovação. O seu autor, o poeta Clídio de Moura Lima, baiano de Senhor do Bonfim, escrevente assíduo nos jornais da cidade, não nega a sua tradição intelectual. A saudade de sua terra e de sua gente, o fez enveredar-se pela poesia para mostrar a essa gente mineira a força que tem o trem-baiano. O resto é consabido!

O belo livro de Clídio me encantou de supetão. Encantaram-me os seus belíssimos poemas que são livres de métricas, de rimas, de regras e de normas. Em algum momento eles se confundem com as crônicas que por sua vez possuem versos longos e continuados. No princípio causou-me certa estranheza, porque sabemos que a estória não precisa de história para contar uma outra estória. Nem sequer “Leia o Trem” necessita da importância maior das vanguardas, pois ele reside no triunfo de uma concepção inteiramente libertária da criação artística. Então, o autor usa dessa liberdade de expressão para expressar e sua própria liberdade de expressão. E isso ele faz muito bem!

Todavia é assim, porque a liberdade de expressão só poderá ser cerceada por regime autoritário, aquele que proíbe a circulação de livros, folhetins e de objetos artísticos. Em resumo, desde a Semana da Arte Moderna de 1922, que todas as normas rígidas de uma literatura ultrapassada foram abolidas dos currículos escolares. Foi a partir desta data que a influência literária dos famosos poetas passou a esbarrar em todos aqueles que iniciava escrever poesias: Castro Alves, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias sempre estiveram presentes nos cadernos escolares de nossas primeiras letras. Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Oswaldo de Andrade, Mário Quintana, Ferreira Gullar e tantos outros, marcaram épocas nos bancos universitários. Pois bem, notamos a influência de todos eles na poesia de Clídio. Em “Leia o Trem” o poema “o trem de ferro” lembra-nos Manuel Bandeira. Por outro lado, “Morte Vivida” possui a musicalidade sonora dos poemas metafóricos de Cruz e Souza.

Clídio é um poeta erudito porque convive com os livros.

Até certo ponto eu concordo com o ilustre prefaciador Antônio Augusto Souto, quando ele diz que a “poesia não existe para ser dissecada, interpretada, sob qualquer metodologia. Destina-se, apenas, à sensibilidade do leitor, à sua emoção”. Para que perdermos tempo com análise, quando o pouco do tempo que ainda nos resta às vezes não basta nem para uma leitura, simplesmente? Mas, eu gosto de analisar poemas e vou tocando o barco.

Autor de excelentes artigos em jornais da cidade, o escritor Clídio de Moura Lima, volta agora a prender a atenção de seus leitores com o influente livro “Leia o Trem”, onde vamos encontrar poemas, crônicas e artigos jurídicos de interesse real e que será, como os grandes êxitos literários, uma das realizações mais positivas e perenes do seu poder de criação no transfigurar da realidade. Parabéns meu conterrâneo Clídio!

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