Pobreza extrema

Frida e Pagu / 07/12/2020 - 00h03

“Eu sou pobre, pobre, pobre, de marré-marré-marré. Eu sou pobre, pobre, pobre, de marré-de-si”. Por mais que uma pessoa viva em penúria rejeitará a palavra pobre, dizendo-se humilde, fraco, simples. A população de Montes Claros foi muito mais carente do que é agora na pandemia. Fotos publicadas por Wagner Gomes no perfil de Maria das Dores Guimarães Gomes mostram que progredimos. Há populares na feira do Mercado Central na década de 1950, entre os quais se vê dezenas deles descalços, rasgados, em situação de miserabilidade. São lavradores trazendo escassos produtos para vender. Estes eram colocados no chão, dentro de cestas de taquara. Não há como romantizar a imagem que reflete os fatos.

Na década de 1970, a pobreza era menor, no entanto, era de uma dor sem tamanho. A fome pontuava cenas chocantes. Na década anterior, a indústria alimentícia impôs às famílias famintas o leite em pó em latas caríssimas, cujo conteúdo, caso fosse usado seguindo a receita do rótulo, duraria quatro dias e meio. A pobre mãe o fazia durar, colocando uma única medida de leite em pó numa mamadeira em que cabiam oito, e para dar a consistência adequada à água, engrossava a mistura com maisena. A desnutrição grassando, as crianças pequenas pereciam aos montes, de forma absurda, especialmente nas portas dos hospitais, aonde chegavam morrendo. Os nenéns filhos dos chamados indigentes ficavam tão fracos que nem conseguiam chorar. Gemiam lamentos tênues, semelhantes a ganidos. Com face morredoura, no mesmo dia em que eram admitidos no hospital, sucumbiam. As mães choravam a seco ao serem informadas da tragédia.

As grávidas chegavam ainda meninas, com a roupa do corpo, sem nada nas mãos. Traziam só a barriga para a maternidade. Eram atendidas pelas freiras e, quando as crianças não conseguiam nascer, o médico era chamado. Tudo era paupérrimo. Os materiais eram reaproveitados, lavados, remendados. Havia damas de caridade que levavam roupinhas de recém-nascidos para que a criança não fosse nua para casa.

As décadas se passaram e a pobreza se reduziu. O Poder Público atuou, assim, mesmo os dependentes dele estão bem adiante dos seus antepassados recentes. Muitos se educaram e progrediram para uma vida digna e cidadã. Avante!

Os nenéns filhos dos chamados indigentes ficavam tão fracos que nem conseguiam chorar. Gemiam lamentos tênues, semelhantes a ganidos. Com face morredoura, no mesmo dia em que eram admitidos no hospital, sucumbiam. As mães choravam a seco ao serem informadas da tragédia

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