“Pescados do mundo”

Frida e Pagu / 28/07/2020 - 00h02

Gêmeo de Cosme numa família de seis irmãos, o poeta Damião Cordeiro me apareceu há alguns anos, numa escrita frequente por e-mail. Nasceu na comunidade de Lagoa, no município de Serranópolis de Minas, conterrâneo do jornalista Délio Pinheiro, que disse ser ele “lavrador na capital” e “cosmopolita em sua aldeia”, e emprestou sua locução, para amplificar a poesia do amigo. Graduado em Letras pela PUC de São Paulo, o artífice da palavra viveu 28 anos na capital, trabalhando nos Correios, Sabesp e Net TV.

É um sertanejo típico, monossilábico, reservado, contido, mas no seio da família deve ter sido firme para conquistar seu quinhão, porque num almoço para oito pessoas, quem não fosse ágil ficaria para trás. 

Sua voz é a sua poesia, mas ele, com sincera modéstia, não se acha poeta. O livro “Pescados do mundo” é pequeno no tamanho e nas 108 páginas, que mal seguram a imensidão da sua poesia espremida em exíguo espaço. Molda frases e tudo o que envolva vivência filosófica. Embora use palavras regionais em versos curtos, com rimas acidentais, fala direto ao intelecto. Na singeleza das suas palavras, distorce o sentido delas, instiga o leitor a matutar e decifrar sua poética, que galopa num Pégasus. 

Suas habilidades vocabulares e escolhas certeiras explodem em incontrolável poesia. Numa fala catrumana, múltipla, suave, crua, rascante, humorística e erótica é desconcertante. A matéria-prima são sentimentos explícitos. O engenhoso operário das letras muda seus sentidos sem contorcionismo. Então, não lhe faço favor ao exibir sua aptidão, separando ou ajuntando vocábulos, em busca do melhor efeito. O resultado é um original quebra-cabeça de mínimas palavras e abissal significado, comunicando profundezas fora do óbvio, para reler e pensar. 

O autor tem mais material precioso. Veja fragmentos dessa obra: “este camponês solitário/ peleja cavoucar/ sementes de mudas palavras/ para, quando a chuva/ da criação cair/ transplantá-las/ para o roçado da poesia”// “Zé Barbeiro/ tinha um coração grande/ não era bondade avolumada/ Trypanosoma cruzi/ fez a fresta/ para a eterna morada”//, “Pelas festas/ do bem querer/ vazo correntezas”//, uma pálida amostra de “Pescados do mundo”, repleto de perturbadora poesia.

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