O Canto dos Passarinhos

Frida e Pagu / 26/10/2021 - 00h02

Quando alguém quer poeticamente parecer sensível, meigo, delicado, põe-se a falar da primavera e seus efeitos. Para manifestar um lado ingênuo, acrescenta passarada cantando, bicando frutas, fazendo ninhos na varanda, borboletas, abelhas e joaninhas frequentando jardins floridos. É gostoso falar dessas lindas miudezas, mas, para que servem os passarinhos?

Depois da tempestade de 22 de outubro, ventania batendo janelas, granizo fazendo monte, destelhamentos, muros desmoronados, árvores frondosas deitadas expondo suas entranhas, veículos marcados por pedras de gelo, avenidas esburacadas, aterros levados pelas águas, céu assustador, estragos por toda parte e falta de energia elétrica, o sábado abre seus olhos renovando esperanças. 

O sol brilha por entre poucas nuvens e os passarinhos em festa gorjeiam em várias linguagens. Diferencio umas poucas espécies pelo canto. Tempos atrás havia quase que só pardais na cidade. Os demais foram massacrados. A lei que tornou inafiançável o crime contra animais silvestres, uma ação que nos civiliza, fez com que muitos deles voltassem a se reaproximar dos humanos. 

No período mais recluso da pandemia, a pouca circulação de veículos e o silêncio resultante, que ainda persiste em certos horários, mostraram em bom tom a sonoridade desses cantos. A parceria de humanos e aves canoras se intensificou. Respeitar sua liberdade, combatendo mortes e prisões em gaiolas é a melhor forma de valorizá-las.

Então, o clima quente traz as frutas regionais: murici, mangaba, cagaita, manga, pequi, panã. O cheiro confunde-se com o sabor. É tempo de jabuticabas. A dramaticidade do extermínio das árvores de frutos do cerrado é revoltante, e mais, a tempestade jogou ao chão montanhas de mangas verdes; uma pena de fazer chorar. Logo nessa temporada em que a fome se alastra país afora. Mas, mesmo caro e vindo de fora, ainda temos o pequi para nos alimentar e consolar com seu aroma intoxicante e sabor que a maioria dos montes-clarenses valoriza e quer em grandes porções.

O equilíbrio dos sistemas, como mostra a memória coletiva, leva a um ciclo das águas mais equilibrado, sem secas prolongadas e sem seu inverso, as tempestades. E que o tempo de chuvas nos traga frutas, passarinhos, respeito pelas árvores e pelos animais.

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