O apagar das luzes

Frida e Pagu / 12/01/2021 - 00h13

Após a curva da maturidade vem a aposentadoria. É tempo de parar um pouco e depois buscar novas estradas. Há algum tempo, as pessoas passaram a se preparar para esse precioso período, a última etapa da vida, que pode ter cor, planos e feitos.

Afora as doenças, que podem existir nessa época, muito se pode fazer em vários setores do querer humano. No Brasil, o despreparo costuma cobri-la de nostalgia. Muitos deixam no trabalho a vaidade, não cuidam de si, e não sonham. Outros constroem nova existência.

A pandemia fechou meu consultório e antecipou minha inatividade, quando, há dez meses, confinei-me. Agora, fui arrumar as gavetas de lá e me deparei com rumas de papéis e anotações. Passei meus 40 anos de endocrinologia estudando, anotando dicas quentes, dedicando-me a atender bem, acolhendo pessoas. 

Não fui sempre afável. No começo, a juventude me fez enfática, e vivi tensões, mas recuei, combatendo o modo hostil como alguns doentes são questionados. É preciso dar-lhes conforto e explicações sobre seu mal (quando se conhece a doença e como combatê-la, o medo se desfaz). Busquei equilíbrio para melhor ajudar o outro.

A experiência de vida e do consultório é primordial para bem atender, em especial doenças cuja evolução sofre influência das emoções, como por exemplo, controle da obesidade e do diabetes. Os 18 anos de psicanálise a que fui submetida também me ajudaram a dar mais de mim para o bom andamento da jornada.

Em 2010, me formei em jornalismo. Um novo mundo surgiu, auxiliando-me a melhor fazer o que sempre fiz como médica: perguntas. O cerne da boa entrevista é o que questionar e como fazê-lo. Tudo pode ser arguído, seja numa notícia, seja numa consulta. A civilidade ensina como executar a tarefa. O meu Trabalho de Conclusão de Curso no Jornalismo foi “Entrevista: paralelo entre a prática jornalística e a prática médica”, cuja nota foi 97, a mais alta da minha turma de 27 pessoas.

Sou grata às duas formações que busquei e que me ajudam agora, quando encerro a profissão de médica e a Literatura me acolhe na Academia Montes-clarense de Letras, Academia Feminina de Letras de Montes Claros e no Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Consegui abrir esse novo caminho e estou a percorrê-lo.

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