Negação da realidade

Frida e Pagu / 06/07/2021 - 07h36

No tempo das palavras proibidas, ocultá-las era um modo de fugir do mundo real. É tradição não se referir publicamente a doenças físicas e mentais. Falar em rede social da morte de um ser amado e pranteado e não dizer a causa da morte é hábito comum. Fingir enlouquecer ou entrar em sonolência profunda é fuga.

Gente não tão inocente, tempos atrás, achava inexistir repressão aos costumes, não haver consumo de drogas e nem casais do mesmo sexo. Como alguns hoje, vivia em sua bolha sonífera, e não acreditava que poderia haver sexo fora do casamento, exceto homens com duas famílias. 

O fato era conhecido por todos, e a participação masculina era aceitável, já o lado feminino era visto como causador de desconforto social.

Aos apavorados deve-se usar cautela e civilidade ao se revelar uma doença. Nem sempre os médicos conseguem fazer isso. Alguns saboreiam dar notícia ruim. São muitos os profissionais capazes de telefonar para lhe dar, sem nenhum preparativo, um grave diagnóstico.

Mesmo com cuidados, alguns clientes ficam desnorteados diante da má notícia. As pessoas ditas fortes conseguem absorver melhor esses momentos. Tais informações não são nada suaves. O peso da palavra continua demolidor.

Há famílias que ocultam dos mais velhos e das crianças os “assuntos adultos”, por exemplo, situações em que há risco de perder a vida. Quando a tragédia eclode, é preciso falar de uma vez toda a verdade, sem meias palavras.

Sobre diabetes, doença que até pouco tempo estigmatizava o portador, ao serem solicitados exames frequentes de glicemia, alguém dizia: “eu quero mais é me esquecer que tenho diabetes”. 

Quando os comprimidos perdiam o efeito para controlar o Diabetes Mellitus tipo 2, sendo necessário o uso da insulina, o filho contar que não informaria à mãe que tipo de injeção seria, porque a revelação a mataria.

Outros assuntos têm plateia que não gosta de conhecer a verdade. Quando alguém diz não acreditar em um fato com provas testemunhais e documentais, informa, indiretamente, ao ouvinte, que rejeita o concreto, e em sua fantasia, muda-se, de armas e bagagens para um mundo paralelo. Não se desgaste com embates. Nada o fará sair de lá.

 

“Negue o seu amor e o seu carinho/ diga que você já me esqueceu/”
(Negue – Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos)
 
Gente não tão inocente, tempos atrás, achava inexistir repressão aos costumes, não haver consumo de drogas e nem casais do mesmo sexo. Como alguns hoje, vivia em sua bolha sonífera, e não acreditava que poderia haver sexo fora do casamento, exceto homens com duas famílias

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