Contando os dias e as horas

Frida e Pagu / 15/12/2020 - 00h01

Não entendo a vida sem contar o tempo, marcando datas, os começos e os finais. Quando fixo dia, mês e ano, coloco neles a importância do fato datado, ação que faz a vida parecer mais longa. Sei o dia do aniversário de quase todos da família, e só não digo todos devido aos anexos e aderentes alternantes. Falo aqui da família maior, com avós, tios, primos e parceiros. Há quem tenha se casado cinco vezes, daí a amplidão dos dados.

Quando crianças, o tempo passa devagar, assim, esperamos impacientes que cresçamos, a viagem chegue, as aulas comecem, o aniversário aconteça. Porém, marcar datas se torna crucial na maturidade, porque, sabendo que o tempo se esvai, damos-lhe mais importância, sorvendo-lhe os prazeres com intensidade, sejam alegrias, sejam desgraças.

Nascimentos, crescimentos, mortes, mudanças, formaturas, viagens, inícios, rupturas, quantos anos tem que me aconteceu cada coisa? Viver anotando mentalmente aumenta o prazer de vencer e o sabor de cada conquista. Nos meus róis de perdas e ganhos tenho destacado algumas datas.

Como contar a vida a um novo amigo se você sabe como, mas não quando? Sem referência da época, os fatos perdem a importância. Alguns omitem o ano do nascimento, por ser feio envelhecer. Na internet o questionário inclui: nome, idade, estado civil, moradia, profissão, filhos, quando isso, quanto aquilo, assim a conversa flui na avenida da aritmética.

Há quem tenha aversão às datas. Não se lembra nem de quando se casou. Não sabe referências históricas como Descobrimento do Brasil, Grito da Independência, Proclamação da República, Abolição dos Escravos. Quando foi tal governo? Quando o prefeito decretou o isolamento social? Dia 16 de março de 2020.

Perguntei a três amigas quantos anos tinha a morte da mãe de uma e avó de duas delas. Desapontada, ouvi números entre três e dez. Gostaria que, após cada morte, quem tenha conhecido o morto, dada sua importância, fale com saudade, enumerando os anos da sua ausência.

É preciso imprimir tempo à vida, mas principalmente imprimir vida ao tempo. Ter consciência de cada momento é viver melhor. Coisas maravilhosas precisam ter um dia para comemorar seu aniversário. As ruins também, para sabermos quando nos livramos delas.

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