Se estivesse vivo, João Guimarães Rosa (1908- 1967), um dos maiores ícones da literatura brasileira, completaria 110 anos hoje. Para celebrar a data, a montes-clarense Ivana Ferrante Rebello foi convidada pela presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, a deputada federal Raquel Muniz (PSD) para participar da mesa expositora sobre os 110 anos do escritor mineiro. 

“Sou de Montes Claros, Norte de Minas Gerais, por isso me identifico como geraizeira, com orgulho. Minha vida e minhas opções profissionais definem-se a partir dessa condição e desse sentimento de pertença que se solidifica”, diz Ivana, que cresceu vendo o pai olhar para o céu tentando ler os sinais de chuva e vendo a esperança brotar com pujança a cada novo inverno. 
 
Quando e como surgiu o interesse pelo universo literário?
Sempre li com voracidade. E sempre escrevi. Para mim são duas condições inalienáveis. A literatura nasceu muito cedo para mim, dentro de minha casa, com incentivo de meus pais, na minha vida escolar, como primeiro instrumento de manifestação. Sou afortunada por ter como meio de sobrevivência o que me deu sempre prazer. Quando fiz Letras, o aperfeiçoamento em literatura foi um percurso natural. Pós-graduações, mestrado e doutoramento foram caminhos naturais, portanto, exigências de aprimoramento profissional e da minha sede de ler. Minha tese de doutorado foi sobre a obra de Guimarães Rosa. Posso dizer que, com ela, respondi a um anseio antigo. Nela vi minha gente e minha terra sob novos referentes. 
 
Como recebeu o convite da deputada Raquel Muniz para participar da audiência que a Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados promoveu em homenagem aos 110 anos de nascimento do escritor mineiro Guimarães Rosa?
Aceitei prontamente. Falar de literatura é falar do poder da linguagem, das relações que se estabelecem entre as diferentes culturas e da capacidade de representação do devir humano. Considerei muito importante a abertura desse espaço para as discussões sobre arte e literatura. 
 
Como foi a discussão na audiência?
A audiência demonstrou que o exercício do poder é, antes de tudo, o exercício da proximidade com o povo. Sempre ressaltei que a literatura coloca em evidência a voz do anônimo, daquele que não pode ou não teve oportunidade de se expressar. A homenagem ao grande escritor Guimarães Rosa é uma homenagem ao homem comum, ao sertanejo, ao catrumano (caipira), à mulher, à criança, ao poeta, ao louco, enfim, àquele ser pequenino que só pode ser visto pelo olhar da poeticidade. Também foi uma oportunidade de colocar em evidência o sertão. O sertão brasileiro – formado pelos gerais, pela chapada e pela caatinga – representa 25% do território nacional. Ao evocar a beleza e força desse espaço, Guimarães Rosa alerta para a necessidade de preservação. 
 
Por onde o leitor pode começar a travessia pelas obras de Rosa?
Para ler Guimarães Rosa é preciso despir-se de todos os preconceitos: os linguísticos, os religiosos, os sexuais, os sociais. Ele coloca em evidência tudo o que nos angustia e nos redime como seres humanos. Não é preciso ser sábio para ler Guimarães Rosa, é preciso ser gente, no sentido de deixar fluir nossa humanidade, nossa sensibilidade, nossa intuição. Todos acabam se encontrando na obra dele. Eu sempre digo a meus alunos: se achar difícil a leitura, ouça o som de música das palavras, ou se abra ao efeito estético das belíssimas descrições. Guimarães Rosa não é autor para ser entendido. Aliás, a literatura se furta ao entendimento. Ela é arte, precisa ser lida como arte. 
 
Qual o papel da obra do Guimarães Rosa na literatura brasileira?
Um grande autor é o que sobrevive. Além de tudo, ele excita nossa imaginação e nos faz desconfiar de nossas certezas. Guimarães Rosa revoluciona nosso modo de ler, porque ele nos força a rever nossa prática costumeira, alargando nossas percepções. Autor traduzido em muitas línguas, ele ensina que a arte não tem pátria nem geografia. Simultaneamente, ele revitaliza o olhar sobre sua terra natal (ele é mineiro, de Cordisburgo) e expande esse lugar para o mundo, articulando como ninguém a questão do local e do universal. O mais extraordinário, a meu ver, é que ele coloca no mesmo plano o discurso erudito e o coloquial, por meio de uma linguagem poética admirável. Ele nos emociona como brasileiros, porque ele expande o Brasil para além das fronteiras, sem cair na armadilha do regionalismo pitoresco e descritivo. Teria sido contemplado pelo Nobel de Literatura não tivesse morrido tão precocemente. Sua imortalidade, todavia, não depende de prêmios. Ela sobrevive de sua vitalidade na expressão literária; ela sobrevive na surpresa e no encantamento que ele nos provoca a cada nova leitura. 
 
Por quais cidades do Norte de Minas Rosa andou e o que tem dessa região que podemos identificar na obra dele?
Guimarães Rosa dá muito destaque ao Norte de Minas. Montes Claros é citada nas novelas, contos e no romance “Grande Sertão: Veredas”. Ele também cita Bocaiuva, Januária, Janaú-ba, São Francisco, Jequitaí, Buritizeiro, entre outras. Também dá evidência aos rios do sertão, à fauna – especialmente às espécies de passarinhos. Essa riqueza cultural desse povo norte-mineiro, mestiço, bravo sertanejo, contador de “causos”, tocador de viola, raizeiro é sobressaltada nos livros dele. Ele coloca em evidência um lugar até então sinônimo de falta, escassez e dor. Com sua escrita, o sertão é representado em sua beleza, diversidade e riquezas. 
 
Fale sobre seus livros “Papagaio conta história” e “O Anel que tu me deste”.
Em 2010, lancei o livro “Papagaio conta História”, que resgata, do ponto de vista da crítica literária, a presença dos pássaros em nossa literatura. Estudei desde os sabiás – derivados daquele famoso sabiá da Canção de Exílio, de Gonçalves Dias – até os papagaios, especialmente a ará, de Iracema, de José de Alencar, e o papagaio de Macunaíma, de Mário de Andrade. Em 2017, lancei “O Anel que Tu me Deste: Grande Sertão: Veredas – Uma História de Amor que virou Livro”, elaborado a partir de uma pesquisa sobre o trabalho icônico de Guimarães Rosa.

Para alguém que nunca leu Guimarães Rosa indico ler como bom mineiro, “ir comendo pelas beiradas”. Há contos belíssimos em ‘Sagarana’, em ‘Primeiras Estórias’ e em ‘Corpo de Baile’