Eleito para o terceiro mandato como presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRMMG), o pediatra Fábio Guerra afirma que as condições precárias da saúde podem ser amenizadas. Para ele, uma solução viável é reforçar os investimentos nos postos de saúde. Com maior atenção a essas unidades, segundo o especialista, será possível, por exemplo, desafogar a demanda por atendimento nos hospitais, que hoje frequentemente ficam superlotados. O presidente do CRMMG fala sobre os desafios a serem enfrentados na área e temas polêmicos que ganharam a mídia recentemente.
 
Erro médico tornou-se um assunto bastante comentado, principalmente após o caso do “Doutor Bumbum”. O que fazer para não cair em armadilhas?
Quem recorre a qualquer tipo de procedimento médico precisa saber que é responsável pelas escolhas que faz. Nenhuma intervenção pode ser considerada simples, o paciente precisa ter cuidado e segurança. Infelizmente, o que acontece muito é ele priorizar o custo, e é aí que se pode cair em armadilhas. A pessoa que deseja fazer um procedimento adequado deve procurar um profissional capacitado. Além disso, precisa conhecer o local onde essa intervenção será feita, qual a segurança do espaço, a equipe que a atenderá e, acima de tudo, se há estrutura adequada para tratar qualquer complicação decorrente do procedimento.
 
Como o CRM fiscaliza a atuação dos profissionais em Minas?
Atualmente, trabalhamos bastante com a fiscalização por demanda (solicitações), porque as condições de saúde estão se tornando cada vez mais precárias. Temos duas preocupações. A primeira é a condição à qual o médico está exposto para exercer a função. A outra, extremamente séria, é a condição de assistência à qual a população tem acesso.
 
Uma pesquisa do Conselho Federal de Medicina (CFM) mostrou vários problemas em postos de saúde brasileiros, como falta de medicamentos e até sala para atendimento médico. Quais os principais problemas nessas unidades em Minas?
Os relatórios mostram extrema deficiência de estrutura física para o profissional e para a assistência aos pacientes nas unidades básicas. A precarização decorre da falta de financiamento adequado, da restrição de recursos e de gestão. Descompasso entre financiamento e demanda levam a filas, demora e escassez na oferta de atendimento.
 
Há muita reclamação sobre falta de médicos...
O número de profissionais na atenção básica aumentou, mas eles precisam de condições de trabalho. Não adianta só ampliar a quantidade de consultas se não tem como oferecer exames, raio-x, biópsias, encaminhamento para especialistas. É um gargalo que dificulta muito.
 
Como solucionar esses déficits?
A atenção básica é primordial no atendimento. A maioria dos problemas é resolvida nos postos de saúde, evitando o encaminhamento do paciente para UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento), prontos-socorros e hospitais, que acabam superlotados. Infelizmente, o que ocorre é uma inversão. Existe uma falsa impressão de que os problemas podem ser sanados na UPA, mas isso é um equívoco. Essas questões deveriam ser solucionadas nos centros de saúde. Se conseguíssemos resolver a maioria dos problemas na atenção primária, iríamos desafogar essa procura. 
 
Como o conselho avalia os casos de violência nas unidades de saúde?
Ao procurar atendimento nesses locais, o paciente, de forma equivocada, responsabiliza a equipe como se ela fosse a culpada pela situação precária da saúde, resultando em episódios de violência. É um erro. A equipe está ali para atender a população, mas, muitas vezes, pode haver um impedimento, seja ele de estrutura ou de fluxo de atendimento.
 
Como o CRM avalia os cursos de medicina e a oferta de vagas?
A grande preocupação é com a qualidade da formação. As instituições devem se qualificar para formar adequadamente os profissionais para que esses entrem no mercado de trabalho em condições de exercer a medicina corretamente e oferecer, com segurança, assistência à população. Algumas estruturas e equipamentos de formação são deficientes. 

Em junho, os participantes do Encontro Nacional das Entidades Médicas aprovaram a criação de um exame de proficiência para os recém-formados. Como será a implementação da proposta?
Ela ainda está em elaboração. A ideia é avaliar os egressos da faculdade de medicina de forma a saber se a formação foi qualificada. Ainda estamos discutindo como será o modelo das provas. Acreditamos que esse exame deve ser realizado por séries, e não só no fim do curso. Devem ser feitas duas avaliações, no mínimo. Uma no meio da graduação e outra ao final. O aluno precisa ser acompanhado em série e, a partir desses resultados graduais, daremos um retorno para a instituição de ensino para que sejam feitas as correções necessárias durante o curso.
 
Várias doenças erradicadas voltaram a preocupar o Brasil, mas os índices de vacinação estão aquém do ideal. Qual a orientação do CRM?
Orientamos a população a procurar os postos, tanto para serem vacinadas quanto para imunizar os filhos. As doses são seguras. Em um período, a cobertura vacinal foi significativa e muitas doenças deixaram de existir. Por outro lado, esse cenário trouxe a falsa segurança de que não haveria mais a necessidade de se proteger. No entanto, é preciso ter cobertura vacinal alta para manter as enfermidades erradicadas. Ao entrar no país, o vírus da doença se propaga rapidamente, como o que aconteceu com o sarampo. Os riscos estão cada vez maiores, e só serão controlados se crianças e adultos se protegerem.