Minas Gerais tem praia

Pilar Literário / 12/02/2021 - 00h28
Eu era menina! Nunca tinha visto o mar, a não ser em revistas, livros, embora fosse uma ideia muito pálida daquele aguaceiro, que conheci um dia já com 15 ou 16 anos de idade. Fiquei deslumbrada! No Leblon (RJ) eu não tirava os olhos do mar, do grande Oceano Atlântico, e, ali, era apenas uma porção, mas que porção generosa!

E ali, entre sonho e devaneio, entre os encantos e o arrebatamento passava-me pela mente as palavras da professora lá no curso primário: Minas Gerais é um Estado central, porque não é banhado pelo mar. E a minha vontade, minha grande vontade era retornar a Montes Claros e descrever o mar, lá no Leblon, no RJ.
 
Depois conheci Ipanema; em Copacabana, minha hoje amiga, que me levou até lá, comentou com sua mãe, que ficara muda, de boca aberta, olhos vívidos, parados contemplando Copacabana. Era o mesmo mar, o Oceano Atlântico, mas se apresentava aos meus olhos com uma graça própria!
 
Mas sempre lembrando: Minas Gerais é um Estado Central, porque não é banhado pelo mar. E eu pensava fronteirando com o RJ, ES e SP só um puxadinha e Minas Gerais teria mais essa imensa riqueza!
 
Certo dia eu descobri de tanto ler (sempre leitora assídua que sou) que Minas Gerais tinha praia. E fui pesquisando. Minas Gerais tem praia! Conheci Pirapora, bem ao Norte de Minas Gerais. Pirapora é uma cidade que foi inicialmente habitada pelos índios Kiriris ou Cariris, como são mais conhecidos. Ramos do tronco indígena Macro-Jê, esses índios vieram do Nordeste pelo rio São Francisco fugindo de guerras e conflitos entre outras tribos e evitando também o homem branco. 
 
Segundo os vestígios deixados por eles, a língua falada era o Tupi ou ainda, Tupi-Guarani, sendo que o primeiro nome que deram a esse lugar foi Pira-porê, que significa o ”salto do peixe”, já que na região é comum os peixes saltarem pedras dentro do rio na época da desova. Embora, posteriormente, houveram outros nomes que designaram essa cidade, foi desse nome que veio o nome que ficou: Pirapora.
 
Foi na pescaria e na navegação que a cidade se tornou conhecida. Embora a emancipação política só foi feita em 1912, seu nome já consta em músicas e livros muito mais antigos. Em Pirapora é possível encontrar a primeira ponte de ferro construída sobre o rio São Francisco. A Ponte Marechal Hermes que liga os municípios de Pirapora e Buritizeiro foi construída com madeira e ferro. O ferro veio da Bélgica. 
 
Nessa época, a cidade foi inserida no projeto de expansão da Ferrovia Central do Brasil, que pretendia interligar a então capital do Brasil, Rio de Janeiro, a Belém do Pará. Inaugurada em 10 de novembro de 1922, a ponte ferroviária metálica é estruturada em treliça, com ligações rebitadas, mas o projeto não foi concluído, parou na cidade de Buritizeiro. Foi tombada pelo Estado em 1985. Mas colocou esse município na história.
 
Devido à parte navegável do rio São Francisco, embora não tenha mar, Pirapora recebeu uma sede das forças da Marinha do país. Inclusive, uma Escola de Aprendizes Marinheiros. E com a Capitania Fluvial do São Francisco, Pirapora concentrava em suas margens um importante porto de navegações. A mais famosa delas é o vapor Benjamim Guimarães. Última embarcação do último século a funcionar movido a vapor. Foi construído em 1913, na região do Mississipi, e participou da Segunda Guerra Mundial. Navegou no rio Amazonas e, em 2020, fez 100 anos que veio para o rio São Francisco, onde ainda está. 
 
Tem resistido ao tempo, passado por incêndios e desgastes, mas está sendo restaurado, uma vez que é um bem tombado e patrimônio histórico. Dona Elvira, que completou 100 anos em 2020, na sua juventude trabalhava na cozinha desse vapor, sendo aposentada após inúmeras viagens pelo rio.
 
 
 
 
 
 
 
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