Adeus, Mestre Zanza!

Pilar Literário / 29/10/2021 - 00h05

As tradições folclóricas são bem vívidas em Montes Claros, norte de Minas Gerais. Os catopês , caboclinhos e marujos desfilam a cada ano num batuque de pandeiros, num sapateado bem compassado; artisticamente treinados homens e mulheres devotados ao folclore, nas festas de agosto saem pelas ruas exibindo uma harmonia entre braços e pés, numa métrica que inveja dançarinos, músicos e matemáticos.

Nós vamos para as ruas para apreciar e aplaudir uma arte, uma exibição simétrica que ninguém conhece o autor. Todos os anos eu vou para assistir àquele espetáculo de sons, de cores, de batuques e aquela cantiga triste saída lá do fundo do coração, alcançando o cérebro e voltando à boca para que a voz conte a história.

Em meio aos ternos de catopês, caboclinhos e marujos vislumbramos a figura do mestre Zanza: silente, com um andar espartano, ele vê tudo e todos com o seu olhar de 86 anos, viçoso e brilhante corrigindo o que por ventura não esteja de acordo. 

O seu capacete é diferente dos demais, de uma arte peculiar para um protagonista mestre: o Mestre Zanza. Muitos posaram com o mestre para uma foto histórica e já vi crianças fotografadas com o seu capacete. 

Mas não tem importância usá-lo, pois não se trata de um símbolo de realeza, como uma coroa que é usada exclusivamente pelos reis e rainhas e príncipes e princesas, mas é o símbolo da simplicidade a que todos podem se aproximar.

Não sei se o mestre Zanza teve vida na Universidade, onde as pessoas se tornam mestres, mas na Universidade da vida ele aprendeu a simplicidade, que dissipa o orgulho, a humildade, que lança por terra a vaidade e aprendeu o canto das vozes melodiosas e nos batuques dos pandeiros, no gingado dos corpos e no rodopiar das bandeiras a transformação do preconceito em alegria e graciosidade.

Enquanto seu corpo era velado no Museu Folclórico dos Catopês a natureza chorou; e sob forma de fitas brancas a chuva desceu copiosa e mansa e escorreu pelo asfalto produzindo fitas coloridas propiciando o conforto aos que ali se encontravam tristes e chorosos. 

Na Certificação do mestre Zanza na culminância de seu mestrado está escrito: certifica-se a João Pimenta dos Santos o resgate da cultura popular , da simplicidade e do respeito pelo que é de todos, por essa herança incontestável , que há de ser lembrada pelas gerações futuras, como um prenúncio que não tem preço, mas que custou-lhe a vida de cidadão montes-clarense.

Montes Claros é profundamente agradecida mestre Zanza!

Muito obrigada!

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