Silenciam-se os tambores!

Editorial / 26/10/2021 - 00h26

“Vai fazer muita falta pra mim esse trem”. Com esse vocabulário tipicamente mineiro Mestre Zanza resumiu o sentimento que o invadiu durante a pandemia da Covid-19 e que o impediu de “zanzar” pelo asfalto como habitualmente fazia todo mês de agosto. Parte hoje, nesta cinzenta manhã de outubro, ao encontro do Santo Rosário, a quem dedicou e louvou durante 82 dos seus 88 de vida, e hoje a cidade é unânime em repetir uma das suas últimas e folclóricas frases: “vai fazer muita falta esse trem”.

Zanza se tornou lenda e personagem, maior até do que a própria Festa de Agosto, evento que celebrava a sua devoção aos santos, em especial à Nossa Senhora do Rosário - cujo terno de catopê ele comandava - e à sua Montes Claros. Seu legado é imensurável. A Associação dos Catopês, Marujos e Caboclinhos se tornou a sua residência oficial e a qualquer hora do dia era encontrado ali na Rua Santa Efigênia, na entrada da casa, sentado à sua cadeira tal qual um rei toma posse do seu trono. Sem os paramentos, mas impregnado com a alma das Festas de Agosto, cuja majestade ostentava com orgulho e altivez. Era quase um monumento, uma estátua, exceto pelos momentos em que se movia para atender aos simples mortais que passavam para fazer uma foto ou pedir algum conselho.

Eternizado na célebre “Montesclareou”, música que se tornou o hino de Montes Claros, de autoria de Tino Gomes e do saudoso Georgino Junior, sabia-se “dono” do chão, da rua, da multidão que abria-se à sua passagem. Era reverenciado como Deus em sua terra natal. Não obstante a sua importância como personagem cultural e folclórico de Montes Claros, nunca perdeu a humildade e hábitos simples, seu maior legado e exemplo para as gerações posteriores.

Com a morte de Zanza, fecha-se um ciclo. O ciclo dos Mestres de uma geração de Catopês, que perdeu nos últimos anos o Mestre Expedito e Mestre João Faria, que completavam a trilogia de “chefes” do asfalto. Sobrevivem as duas marujadas, comandadas por Tim Marujo e José Hermínio, respectivamente, e os caboclinhos, que têm à frente a “cacicona” Socorro. 

Os herdeiros de Zanza, sanguíneos ou morais, tem a dura missão de manter vivas as Festas de Agosto, quase sempre chamadas de “Festa dos Catopês”, e o seu pulso, que cobrava incessantemente melhorias e investimentos naquele que se tornou o maior patrimônio cultural e econômico de uma cidade, referência para artistas como Toninho Horta, Maurício Tizumba, Beto Guedes, Tino Gomes, Tavinho Moura, Saulo Laranjeira, Murilo Antunes, Paulinho Pedra Azul, Tadeu Franco, e tantos outros que ajudaram a construir a identidade cultural do Estado e invarialvelmente eram encontrados circulando pelas ruas de Montes Claros como cidadãos anônimos, ou fazendo apresentações durante o evento.

“Siga seu caminho na luz, porque aqui, todo coração montes-clarense, todo coração do Norte de Minas levará seu legado em frente. Viva, Mestre Zanza!”, diz Tino Gomes ao receber emocionado a notícia da partida do Mestre. E arremata, com os versos que lhe dedicou em vida: “Louvado seja o santo Rosário/ Louvado seja poeira e dor/ Louvado seja o sonho infinito/ E Mestre Zanza que é o cantador”.

 

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