Realidades

Editorial / 24/03/2021 - 00h24

As sirenes das ambulâncias se confundem com a voz que implora por um prato de comida ou uma ajuda que garanta mais um dia de vida. As ruas vazias de uma cidade quase fantasma contrastam com os ônibus frenéticos em seu ir e vir, sempre lotados daqueles que não podem ficar em casa por medo de perecer de fome.

Lá fora, realidades extremas se encontram: aqueles que lutam para sobreviver à enfermidade e aqueles que precisam trabalhar para não morrer de fome e os que lutam para salvar vidas. A vida exige coragens distintas de cada um...

O choro incontido de quem tem gente lutando contra a Covid-19 em um leito de UTI se mistura ao choro de fome da criança que a mãe aflita e impotente carrega nos braços. Um pouco de leite, por favor, dizem seus olhos. Fragilidades da vida escancaradas por uma pandemia. A guerra lá fora não para.

Tempos difíceis que enterram sensibilidades. A esperança já se cansou e deu lugar ao desânimo, a solidariedade já não é mais o bastante para transformar dias sombrios em dias cheios de gratidão. Batalhas se sucedem sem trégua, deixando rastros de dor, de cansaço... A fé, outrora inabalável, se esvai ante o caos que parece sem fim.

A vida que pede passagem nas ruas, nos ônibus, na tristeza de quem vê seus sonhos sendo estilhaçados pela irresponsabilidade do outro, pela falta de consciência, por um sistema de saúde precário, por uma economia à beira da falência, já não é mais tão intensa... 

Mas, ainda assim, a vida pulsa e comemorar as mínimas vitórias se torna essencial: o leite doado para alimentar, ainda que, apenas por mais um dia, a criança que a mãe agora acalenta; o prato de comida que saciou a fome por mais um dia, o pai ou a mãe que sobreviveu por mais uma noite.

A sobrevivência, mais do que nunca, requer esforços múltiplos, coragem gigante... As dores se misturam e já não nos distinguimos na nossa agora sub-humanidade. Voltar a ser humanos é o que nos move. Talvez seja a grande lição. E enquanto a bruma cinzenta da pandemia que cobre os nossos dias não se dissipa, seguimos cambaleantes... passo a passo, um dia de cada vez. Desistir, já não é mais possível, é preciso lutar mais e mais por dias melhores, só assim sobreviveremos a tudo isso.

 

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