Ganância da água

Editorial / 04/09/2020 - 00h01

Alheia à necessidade de investir parte do seu exorbitante lucro na preservação de rios e nascentes, de onde não mede esforços para captar água, numa ganância quase que desenfreada por destruir o bem que garante o sustento do seu negócio, a Companhia de Água que atende os montes-clarenses não se envergonha e nem se justifica pela água ofertada ao cidadão. 

Ante os cifrões oferecidos por essa mesma Companhia, que por décadas cobra por um tratamento de esgoto que inexiste, o que significa que o esgoto de mais de 400 mil pessoas são lançados nos rios da cidade, o município também não questionou a qualidade do serviço prestado e tratou logo de assinar novo contrato com a empresa. Pensando apenas em garantir a perpetuação no poder, sem pensar, nem por um minuto, na qualidade de vida da população, foi autorizado pelo município, não apenas o aumento das tarifas, mesmo aquelas relativas a serviços inexistentes, mas também a mudança na forma do abastecimento. Resultado: a qualidade da água calcária, cheia de cloro, consumida pela população, ficou ainda pior. Além de receber em casa água que desafia as leis da ciência, por não ser nem insípida e nem inodora, a população sofre com esgotos adentrando banheiros e cozinhas, sem pedir licença, sem dizer da água que insiste em não aparecer, embora seja sempre paga. 

Os cifrões advindos do novo contrato, que serviram apenas para alimentar os poderosos, deixaram para o povo apenas a conta, bem salgada, a ser paga mensalmente. Eis a única participação da população no processo. Soma-se a isso, o fato de que, longe de resolver a crise de abastecimento que assola a cidade ano a ano, a Companhia não está obrigada a reinvestir em terras dos Gerais um centavo sequer dos muitos reais que arranca do povo. Isso mostra que existe, por parte de nenhuma das partes, a intenção de melhorar o serviço, de levar água de verdade para o cidadão. Usar o Artigo 20 do Código do Consumidor contra um e outro talvez seja a única via de quem não foi consultado sobre tamanho desserviço.

Sim, os cidadãos foram roubados em seus direitos, por ambas as partes, e forçados a sorver, dia a dia, por longos anos, goles de uma realidade que deixa a todos entalados. Por poder, por dinheiro, cometeu-se a audácia de comprometer a saúde de toda uma cidade. Mas, para quem pouco investe em saúde, que importância tem uma água de má qualidade?
 
 
 

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