Dores da pandemia

Editorial / 11/02/2021 - 00h12

A pandemia veio e mostrou ao ser humano que, ao contrário do que ele egocentricamente imaginava, não consegue viver um longo período no isolamento. Se para os ursos hibernar é uma condição inerente à sua existência, socializar é fator fundamental para a vida humana. Sem a socialização, a vida parece que fica capenga. Abraços, apertos de mão, beijos e mesmo o happy hour às sextas pós expediente têm uma importância nunca antes percebida por nós. Gestos simples que transformam o cotidiano.

Prova dessa necessidade foi o crescimento do mal da era contemporânea. A depressão parece ter se alastrado na sociedade moderna e, ainda mais, nestes tempos de pandemia, na mesma velocidade do vírus. Se cada um de nós tem algum conhecido que foi infectado pelo coronavírus, temos também alguém próximo que foi afetado pela depressão. Muitos dos casos que estão chegando aos consultórios são de pessoas que já não suportam mais o estado de solidão, que não estão mais conseguindo viver em sua própria companhia. Muitas, ante o medo de sucumbir à dor d’alma, decidiram arriscar sair às ruas, tentar retomar rotinas, porque assim como o vírus, a depressão também leva à morte. 

Muitos podem argumentar que voltar à rotina, flexibilizar é colocar em risco a coletividade, enquanto a depressão é uma ruína solitária. Mas se tem uma coisa que a pandemia veio para ensinar foi a sermos mais solidários com a dor do outro. Se a sociedade criar mecanismos eficazes para que aqueles que precisam se socializar, assim como se precisa de oxigênio para viver, possam exercer esse direito ou ainda, se a sociedade estiver estruturada para dar suporte tanto aos que precisam do oxigênio quanto aos que necessitam da socialização, a coletividade estará segura. O que se precisa é de força política e ações efetivas para termos essa estruturação social e, portanto, termos garantida a liberdade com responsabilidade.

Que a solidariedade, ensinada e apreendida praticamente à força durante uma pandemia que sacudiu o mundo e colocou a humanidade de joelhos, não seja seletiva, não seja excludente, não seja discriminatória, mas seja capaz de abraçar todos aqueles que sentem seja uma dor física, seja uma dor de alma.
 

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