Dinheiro público e a enxurrada

Editorial / 21/10/2020 - 00h04

Muitas e muitas cidades pelo Brasil afora se transformaram em verdadeiros canteiros de obras nos últimos seis meses. Não por acaso, era chegado o tempo das eleições, quando a população tem a oportunidade de escolher quem vai administrar seu município.

E as eleições fizeram ainda outros “milagres”, porque inúmeras obras, finalizadas às pressas, foram logo sendo inauguradas e nem mesmo a pandemia da Covid-19 foi obstáculo para que isso acontecesse. No entanto, um sem número foram inauguradas apenas para contar números a quem pretende se reeleger ou, ainda, eleger um indicado, já que depois de inauguradas permanecem sem utilidade, se transformando em enfeite para a cidade.

Enquanto isso, a população que quer mais do que ver inauguração desse ou daquele prédio, dessa ou daquela avenida, permanece sem saber ao certo se os recursos, fruto do seu suor, transformado em impostos, foram bem utilizados, já que não podem usar os espaços inaugurados.

Interessante mesmo foram os quilômetros e quilômetros de asfalto, alguns feitos com recursos do município, mas também fruto de impostos e outros, pasmem(!), pagos pelos próprios moradores de algumas ruas, que se dissolveram com as primeiras chuvas. Ainda nem chegou o verão e a temporada das chuvas está longe, mas as gotas que surpreenderam a primavera já foram capazes de mostrar ao cidadão que o dinheiro, aquele que ganhou a duras penas e gastou em impostos, imaginando estar investindo para ter de volta benefícios coletivos que de fato trouxessem mais qualidade de vida à população, desceu pelos bueiros ou ficou empoçado em ruas mal feitas, sem bueiro, sem drenagem para que a água possa escoar.

Esse é o retrato de cidades cujos gestores se preocuparam em fazer obras a serem vistas e apreciadas por todos, mas que acabaram se tornando obras sem utilidade, obras apenas para “inglês ver”, como diriam os mais críticos.

E assim, a eleição se mistura com obras, se mistura com a chuva, se mistura com o choro do povo que acreditou ter investido seu dinheiro quando, na verdade, acabou por vê-lo escorrer pelo ralo, pelo bueiro, junto com a chuva fina que chegou para lavar o calor e para expor algumas verdades.

 

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