Aos 24 anos, a médica fazia residência na capital, e o mundo, até então, lhe parecia sólido, apesar dos medos e dos desafios enfrentados e vencidos. A saber: a primeira aula de anatomia, diante de sete cadáveres, o primeiro plantão em pronto-socorro e os grandes queimados, a primeira cirurgia com lipotímia e o primeiro parto. Atroz emoção a invadia.

Começavam cedo suas visitas diárias aos doentes da Santa Casa, Hospital São Lucas e Sanatório. Um dia, ao se levantar de manhã, o mundo girou. Olhou para o guarda-roupa, e os móveis passavam em alta velocidade. Nem nos tempos do chapéu mexicano dos parques houve esta sensação de o mundo rodar – cama inclusa, e o corpo, como que em estado fluido, parecia suspenso no ar, envolto em mal-estar. Era a primeira crise de vertigem, das centenas que lhe ocorreriam vida afora. Procurou seu professor de Clínica Médica, Hermann Alexandre Vivaqcua Von Thisenhauser, que lhe disse tratar-se de labirintopatia, a popular labirintite, devido ao mau funcionamento do labirinto, uma estrutura dentro do ouvido. 

Foi medicada e, desde então, o desequilíbrio se repete, de forma leve ou moderada, até crises fortes, com náuseas e vômitos, possibilidade de queda, quando tem de ficar imóvel na cama. Quieta e de olhos fechados, espera até a crise passar. De pé, se fechar os olhos, poderá cair para trás. Sob orientação do otorrinolaringologista, fez uso de todos os medicamentos existentes, sendo cobaia de alguns. Tomou três drogas combinadas em dose baixa durante 18 meses, outros tratamentos prolongados e ainda outros nas crises. Treinou fortalecimento da função labiríntica com fisioterapia, mas não conseguiu ficar equilibrada. Muita “zonzeira” forte aparece. Evita desencadear o processo de tonteira, levantando-se e virando-se devagar, e não olhando para cima nem para baixo. Ainda assim, vem uma cabeça zonza, sendo preciso se segurar. 

Há quem use bebida alcoólica para ficar leve, relaxado, com a cabeça nas nuvens, e outros, naturalmente, podem se sentir flutuantes, em vertigem permanente. Num mundo que parece dissolvido, é como estar sobre uma jangada de cinco paus, em pleno oceano, e a cada onda, a nave subisse e descesse. O mundo não fica parado para quem tem labirintite.