Nós, moradores de Montes Claros, passamos duas semanas de novembro sob forte calor, com todas as tardes marcando temperaturas entre 37 e 39 graus à sombra. O fato nos convenceu do aquecimento global. Os recursos foram inúteis para melhorar a impressão fervente que nos abraçava. Foi preciso ficar imóvel, tomar vários banhos frios, nunca desligar o ventilador e colocar todos, inclusive os cachorros, no cômodo mais fresco da casa. Cansados de tanto suar, sem maneiras de aplacar a sensação térmica, as palavras para reclamar do desconforto se esgotaram. Então, paramos o inútil debate, ficando mudos e inconformados.

Paguei a língua vivendo esse drama, pois disse, muitas vezes, que gosto do calor e quando o asfalto está tremendo estou feliz. Sim, aprecio o calor civilizado e não esse exagero que nenhum ar-condicionado consegue combater. As temperaturas elevadas favoreceram uma avalanche de defeitos em aparelhos de todos os tipos. Pareceu que todo o mundo eletroeletrônico estava quebrado.

Termômetros marcando menos de 24 graus me levam a procurar um agasalho, pois a boa temperatura para mim é de 24 graus a 28 graus. Acima disso, até 34 graus, um ventilador resolve, mas o que nos aconteceu foi coisa que nem os que nasceram aqui presenciaram antes. As parcas chuvas pouco amenizaram o mal-estar. Agora está fazendo o calor habitual, com o qual estamos acostumados.

Pedimos chuva, e não escolhemos horário. Qualquer queda d’água é boa, desde que não haja temporal. Precisamos das precipitações pluviométricas para normalizar o consumo de água, já que estamos em restrição hídrica, com fornecimento em dias alternados. Que continue chovendo, para que nosso reservatório possa aumentar os seus 15% das reservas dos dias anteriores.

Nas tardes daquele sufocante período, quando todas as tentativas refrescantes foram ineficazes, lembrei-me de Milena, minha mãe, em remotas eras, ouvindo no rádio a constatação do tempo meteorológico: tempo bom; temperatura em elevação. Ela, também fã do calor, questionou o adjetivo “bom”, já que estava quente demais. Sabia que uma nevasca é tempo ruim, que tempestade é tempo ruim, mas disse, na ocasião, usando a boa lógica: “Se tempo bom é esse calor terrível, fico imaginando o que seria tempo ruim”.