Quando um índio nasce e vive nu, para ele, é natural estar assim, e não há vergonha em ficar despido. Quem vê fica desconfortável e quer impingir-lhe uma roupa para cobrir seu próprio pudor, fabricado na “civilização”. Ao contrário, se um grupo indígena, por viver próximo à cidade, adotar o hábito da vestimenta, estar vestido torna-se normal, mas, dedos acusando-lhe de aculturamento para arrancar-lhe os direitos constitucionais se fazem presentes.

Comparação semelhante pode ser feita com mulheres muçulmanas, das quais é exigido cobrir a cabeça. Para as ocidentais, o véu obrigatório, quando visitam mesquitas, voa-lhes da cabeça, assim, imaginam o desconforto de usar tal acessório. Porém, no Oriente Médio o uso é habitual, e sem o véu a mulher se sente nua.

Os costumes civilizatórios parecem bons, mas há imposições das quais costumamos ter dificuldade em nos desvencilhar. Questões de higiene são naturais, mas a obsessão pela limpeza, bom cheiro e uso de perfume soa excessiva.

A sociedade cobra preço alto de todos, mas, especialmente, da mulher. Envelhecer é quase uma vergonha. Ser gorda também é um problema social no Brasil, o segundo país do mundo em número de obesos. É preciso ser magra e jovial a vida toda, e a boa estética é cobrada de tal forma que leva as brasileiras a consumir um produto caro: cirurgias plásticas, item pouco exigido em outros países.

A orelha de abano é um desastre na aparência de qualquer pessoa. Não existe harmonia caso haja uma orelha digna de Dumbo ou de Topo Gigio à mostra. Como o bullying escolar impera, corre-se a ocultá-la. Então, caso se comente ter sido submetida a uma otoplastia, pode-se ouvir: Nunca vi nada de anormal em suas orelhas. E a resposta: Mas você nunca viu minhas orelhas. Passado o tempo de recuperação, ao ouvir uma cobrança para mostrá-las: “A cirurgia foi para consumo interno”. Em momentos pontuais, elas poderão aparecer, como na ginástica e na praia. No restante do tempo, os cabelos estarão soltos para cobri-las, pois uma estranha sensação de nudez acontece quando estão expostas. Dá para entender a concepção de vergonha nas diversas culturas pelo mundo. O que incomoda alguns pode passar despercebido por outros. Tudo é questão de costume e hábito.