O polo oposto ao ressentimento nutrido no outro em relação a nós, por nossas qualidades, e ao que fazemos, por nossas escolhas, e ao nosso sucesso, por nossos resultados, é o que nós mesmos produzimos no outro com o intuito, ainda que inconsciente, de provocar sua repulsa e violência.

Ao espelharmos nosso modelo ideal no outro, quer para não fazermos o que ele faz ou para copiarmos suas ações, provocamos nele rivalidade, especialmente quando elevamos e celebramos nossas conquistas e enumeramos vantagens de modo enfático na presença do outro. Oferecemos a ele, como a antiga serpente a Eva, a tentação da inveja. Sopramos em seus ouvidos a sorrateira mentira romântica de que ele não é tão bom quanto nós e, por isso, incitamos nele o anseio de desejar ser quem somos. Insinuamos que a única maneira de ele chegar onde estamos é rivalizando conosco.

O antropólogo e professor de Literatura Comparada francês René Girard chamou essa tendência de nos espelharmos no outro de “mimetismo”, e à tendência de provocarmos o outro contra nós mesmos de “escândalo”. Girard analisa o texto do evangelho de Mateus, no qual o Cristo nos propõe a seguinte reflexão: “Ai do mundo, por causa das coisas que fazem tropeçar! É inevitável que tais coisas aconteçam, mas ai daquele por meio de quem elas acontecem! Se a sua mão ou o seu pé o fizerem tropeçar, corte-os e jogue-os fora. É melhor entrar na vida mutilado ou aleijado do que, tendo as duas mãos ou os dois pés, ser lançado no fogo eterno. E se o seu olho o fizer tropeçar, arranque-o e jogue-o fora. É melhor entrar na vida com um só olho do que, tendo os dois olhos, ser lançado no fogo do inferno” (Mateus 18.7-9).

De acordo com Girard, tornamo-nos escandalosos ao provocarmos o outro à rivalidade, a um tipo de reciprocidade má que desencadeia processos de inveja, ressentimento, violência verbal, física e morte. Amamos a competição porque ela sugere aos nossos desejos que estamos vencendo a batalha mimética. Não queremos perder, por isso provocamos. Provocamos porque precisamos do rival para espelhar nossa cobiça. Sem o outro para nos invejar, o prazer das conquistas seria insípido. Não haveria comparação entre o bom e o melhor, entre o outro e o eu.

Comparamos porque é mais fácil lidar com os insucessos do outro do que com os nossos próprios fracassos. Culpar o outro é mais confortável do que reconhecer nossa ruína. Criamos com muita facilidade nosso “bode expiatório”. Jogamos a culpa nele para camuflar nossas desgraças. É muito mais fácil criar os “bodes” do que reconhecer nossa culpa na criação do processo de rivalidade. 

Ai daquele por quem o escândalo vem! Como Girard afirmou, “de todas as ameaças que pesam sobre nós, a mais temível, como sabemos, a única real, somos nós mesmos”. Nossa sagacidade competitiva e propensão à rivalidade mimética nos fazem fixar em modelos imitando seus gestos e nos constituindo em rivais. Nunca deixamos a paz governar. Se a espada do outro cai, erguemos a nossa para renovarmos a luta. Por isso, o combustível do ressentimento é a reciprocidade.