Em 1972, Dulce e eu conhecemos Serginho, um rapaz de estatura mediana, que se vestia com calça justa de brim fino e boca larga, com coturno militar nos pés (o pai tinha uma fábrica de sapatos e vinha de família numerosa), camisa colada no peito e nas mangas. Moreno bonito de cabelos lisos, grandes e repicados, olhos apertados, sorrisão, uma inteligência com propensão a filosofar, gostava de tocar violão, cantar e desenhar. Tínhamos 16 anos. Depois do colégio, nos encontrávamos na casa de Dulce, para conversar, tomar café com pão e patê feito por Dona Ismar, mãe de Dulce, que se largava do escritório para nos fazer os gostos. Ficávamos ouvindo música, vendo revista de decoração, desenhando, palpitando sobre tudo. Às vezes dávamos uma volta pelo centro da cidade. Essa amizade verdadeira nos deixou marcas profundas.

Cada um seguiu seu caminho naquele momento em que a vida faz uma bifurcação. Fui estudar medicina e me casei. Dulce também se casou e dedicou-se ao comércio, enquanto Serginho, conhecido como Sérgio Ferreira, casou-se com Gilma, teve dois filhos, Mariana e Gabriel, e tem dois netos, Bento e Valentina. Profissionalmente, o que era promessa eclodiu, destacando-se como artista plástico. Víamos seus avanços territoriais encantadas, observando a firmeza e a personalidade do seu traço, sua ousadia e talento. O público, seduzido pelas suas criações, alçou Serginho à fama, sendo festejado em nível nacional e internacional.

Semente plantada na adolescência gera árvore frondosa, assim, anos depois, voltamos a nos encontrar, ocasião em que Dulce e eu nos presenteamos com quadros dele e ganhamos dois mimos. Chegamos a passar duas agradáveis tardes à beira da sua piscina.

Sérgio Ferreira é pintor, escultor, designer de móveis, paisagista e músico. Pode expor suas obras nas ocasiões em que se apresenta cantando suas composições, numa demonstração dos seus múltiplos dons. Ligado ao belo, desenvolveu técnicas para esculturas metálicas e móveis. Se o assunto é arte, veremos o artista vencendo desafios e tendo sucesso. Hoje cultiva a arte plural, aborda temática profana e sacra – muito marcante, dando um show de apuro técnico com suas figuras humanas reinventadas, fortes e sensuais.