Beleza, do escritor, filósofo e jornalista britânico Roger Scruton, é um prazeroso convite para refletirmos acerca do conceito e do lugar que a beleza ocupa em nossas vidas. A partir de uma abordagem filosófica, Scruton contraria a ideia relativista contemporânea de que a beleza – como os demais valores – é algo subjetivo e de pertencimento do sujeito que a percebe. Ao contrário, sua tese é que a beleza é um valor real e universal fundado em nossa natureza racional, porque “a experiência da beleza, tal qual o juízo que ela emite, é uma prerrogativa dos seres racionais”.

A beleza é algo que impressiona. Na verdade, seria melhor se disséssemos “expressiona”, porque o caráter da beleza não está no sujeito que vê, mas fora dele, no objeto contemplado que se revela aos nossos olhos. A experiência estética se dá no prazer de contemplar o objeto na exata forma em que ele se apresenta à nossa mente. E desejar o belo é almejar essa experiência de prazer que não se reduz à utilidade, àquilo que podemos obter de vantagem do objeto, mas repousa no desejo da própria experiência de admirá-lo ou, nas palavras de Roger Scruton, “saborearmos sua presença”.

Edmund Burke defendeu que o sabor da presença do objeto na experiência estética se coloca no belo e no sublime. Ao contemplarmos a beleza em geral, somos atraídos pela quietude, harmonia e ordem das coisas, e nos encontramos neste lugar, numa sensação de pertencimento. É como quando estamos diante de um riacho com águas tranquilas, em pastos verdes ao som dos pássaros. Estamos neste mesmo mundo belo. Encontramos quietude, paz e uma sinfonia harmoniosa de vozes. Percebemos o belo.

Todavia, ao nos colocarmos diante de precipícios, de ventos tempestuosos, de uma paisagem de montanhas imensas e cânions, percebemos a beleza de outra maneira. Percebemos a ameaça, a vastidão e o poder, sua sublimidade. O sublime nos leva a medirmos a nós mesmos em comparação com a espantosa infinitude do mundo. Ao contemplarmos o sublime, vemo-nos pequeníssimos e frágeis, incapazes de lidarmos com o que não conseguimos controlar.

Davi, rei em Israel (reinou 40 anos no período de 1006 – 966 a.C.), percebeu essa distinção ao declarar o belo – “leva-me para junto dos verdes pastos e me faz repousar e às águas tranquilas, refrigera-me a alma” – e o sublime – “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: ‘Que é o homem, para que com ele te importes?’”. Davi compreendeu que a beleza e a sublimidade dos objetos contemplados – que se revelavam a ele em suas particularidades – o levavam a refletir sobre si mesmo, seu pertencimento no mundo e sua fragilidade.

A beleza e o sublime nos atraem para um encontro. Trata-se de uma reunião entre nós e as coisas que contemplamos. Nesse encontro, permitimo-nos ser afetados pelo belo, exprimimos nosso consolador deleite de saber que somos hóspedes neste mundo e reiteramos nossa submissão à imensidade do universo.