Há males invisíveis e poderosamente letais. Todavia, quase sempre os ignoramos. A pandemia do novo coronavírus testemunhou que aquilo que não vemos é muito mais perigoso do que o que vemos. O que não vemos pode nos matar. Nossa tendência, porém, é direcionar nosso arsenal mais poderoso àquilo que elegemos como nossos piores inimigos. Quase sempre, porém, eles não são os mais ameaçadores. Talvez sejam mais visivelmente assustadores, mas não são mais os letais. Há males muito mais letais e esses habitam em nós.

Jesus Cristo afirmou que “não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem”, indicando ainda que muitos não compreendem essas coisas: “Não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre e, depois, é lançado em lugar escuso? Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem. Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos não o contamina” (Mateus 15.11-20). 

Jesus não está ensinando que pouco importa se lavamos ou não as mãos antes de comermos. Sabemos que a higienização é muito importante. A ênfase de Jesus Cristo, porém, está no inimigo invisível, aquilo que nasce no coração, no ser mais profundo do ser humano, e que é capaz de contaminar e dilacerar toda a humanidade. Aquilo que uma pessoa planeja em seu coração, maquina em seus pensamentos, é o que pode modificar totalmente a natureza das coisas e causar os transtornos mais catastróficos e perpétuos. O que falamos é reflexo daquilo que somos interiormente: “A boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12.34). Em outras palavras, o mal está dentro de nós.

Esse mal que habita em nós é chamado pelas Escrituras Sagradas de pecado. Para os cristãos, “pecado é qualquer falta de conformidade à lei de Deus ou transgressão a ela” (Breve Catecismo de Westminster, pergunta 1). Atos pecaminosos incluem nossas ações exteriores quanto os pensamentos, os afetos e as intenções do coração. Os cristãos reformados entendem que o pecado arrasou completamente a natureza do ser humano, tanto seu intelecto quanto suas emoções. Não há nenhuma dimensão de nosso ser que não esteja afetado pelo pecado, razão pela qual tudo o que pensamos e fazemos, o que produzimos em nosso coração, está corrompido por esse mal que habita em nós. Ele é invisível, até mesmo aos mais poderosos microscópios. E ele é poderosamente letal. “O salário do pecado é a morte” (Romanos 6.23).

Todavia, os cristãos sabem que o pecado é plenamente visível somente aos olhos de Deus. Somente ele pode nos perscrutar perfeitamente. E os cristãos também sabem que o pecado pode se tornar visível apenas nas Escrituras, que são o espelho para o qual é possível olhar a aparência e que revelará todas as imperfeições bem como o tratamento que se deve realizar para haver a cura. O pecado causa afastamento de Deus – que a Bíblia chama de morte espiritual – e traz descaminhos reais na vida. 

Esse mal que habita em nós é invisível aos nossos olhos e pode nos matar. Ele é real e precisa ser identificado e tratado. Como uma radiação que penetra o mais interior das células, o pecado vai penetrando nosso ser interior e, se não tratado, nos matará. Os cristãos sabem que permanecer na prática constante de pecado sem qualquer tratamento é sinal de obstinada rebeldia contra Deus, cujas consequências são sempre funestas. Devemos, portanto, direcionar nossas armas contra aquilo que está dentro de nós, contra o pecado, contra os afetos que guerreiam contra Deus e o próximo, porque os maus desígnios procedem silenciosamente do coração.