A arrogância é o início da tragédia existencial e relacional de qualquer pessoa. O arrogante investe todas as suas energias em autossatisfação, e se esquece de que seu esforço se opõe diretamente ao aspecto mais profundo da realização humana que é conviver com o outro, exercitar a generosidade, compartilhar seus sonhos e dar ouvidos a bons conselhos, afinal, como ensinam os provérbios, “o caminho do insensato parece-lhe justo, mas o sábio ouve o conselho” (Provérbios 12.15) e “os planos fracassam por falta de conselho, mas são bem-sucedidos quando há muitos conselheiros” (Provérbios 15.22).

Aliás, por falar em provérbios, surge outro em minha mente: “Antes de sua queda o coração do homem se envaidece, mas a humildade antecede a honra” (Provérbios 18.12). A vaidade é o vazio. É encher-se do que não existe. E o coração é a sede de nossos desejos. É do coração que procedem nossos desígnios. Nele estão as fontes da vida e as tramas da morte. Encher-se de vazio é, portanto, criar uma ilusão, produzir autoengano e viver dele, alimentar no coração a sensação de autossuficiência e de autonomia.

Entretanto, a humildade é o exato inverso do autoengano da vaidade. Como afirmou João Calvino, “a verdadeira humildade é o desprezo sincero do nosso próprio coração, um autodesprezo procedente de uma real percepção da nossa miséria e pobreza, pelo que o nosso coração se abre”. Desprezar o próprio coração não significa autoflagelação ou negar um amor genuíno a si mesmo, afinal o padrão com o qual nos dirigimos aos outros é o amor a Deus em primeiro lugar, e a nós mesmos, secundariamente, como somos ensinados: “amar o próximo como a si mesmo” (grifos meus – Levítico 19.18; Mateus 22.39).

De fato, nós nos amamos tanto que o caminho para o amor ao próximo é o exercício da humildade, de modo que consigamos olhar para o outro ao menos na mesma intensidade que olhamos para nós mesmos, porque “nunca chegaremos à verdadeira humildade de nenhum outro modo que não seja humilhando-nos e honrando nosso próximo do mais profundo dos nossos corações”. Olhar para o outro com generosidade e disposição para ouvi-lo e se doar a ele é o caminho natural para destruir nossa arrogância. 

Sejam quais forem as vantagens que possuamos em relação ao outro, não devemos nos ensoberbecer por causa delas, muito menos desprezar o outro por não possuí-las. Todos temos o que é mais importante: o outro diante de nós. E quando olhamos para o outro, aprendemos a sair de nós mesmos e habitar com o diferente, assim como Cristo fez: tornou-se homem e habitou entre nós e nisso demonstrou a sua glória.

Nessa habitação com o outro, a humildade se fortalece e produz seu fruto mais duradouro: a capacidade de ser pessoalmente educável e sempre disposto a aprender, gerando a verdadeira glória. Se a arrogância é o início da tragédia, porque quanto maior a arrogância maior será o isolamento e o autoengano, ao contrário, a humildade dará luz ao seu fruto: a saída de si mesmo em direção ao outro, a fim de produzir uma humanidade cada vez mais completa, vazia de si e cheia de Deus.