Embora se costume conceituar Filosofia como uma prática apenas reflexiva, teórica e às vezes misteriosa – para muitos, pouco aplicável às circunstâncias práticas –, o fazer filosófico é, por pressuposto conceitual, uma decisão intencional de relacionar os fatos da vida com a compreensão que se tem deles e de agir, decisivamente, sobre tais fatos. Isto envolve, naturalmente, a reflexão e a ação; a teoria e a prática; o método e a finalidade.

Costumo ensinar que a Filosofia deve ser construção intencional progressiva, porque não se limita à estagnação de conceitos ou percepções. À Filosofia é dado o mérito de estabelecer, por meio da investigação propositada, 1. a análise permanente dos conceitos e métodos já estabelecidos; 2. a elaboração ou a recriação de conceitos; 3. a ressignificação discursiva e metafísica de conceitos; ou 4. a anulação de conceitos ultrapassados e julgados impertinentes.

A Filosofia deve ser também construção necessária, porque não se resolve nem se define a partir da contingência de fatos nem da aceitação passiva dos acontecimentos, mas parte da perspectiva de uma realidade construída, dada, pré-definida, revelada na história, que deve ser interpretada com os vários alicerces que constituem a edificação do conhecimento humano.

A Filosofia deve ser também construção sempre fundante de novas percepções, porque fornece, numa pós-análise, os resultados de suas investigações. Não como condição de responder sempre e dogmaticamente às questões da inquietação humana; mas com a finalidade de apontar os diversos caminhos pelos quais o processo metódico e propositado de apreensão do conhecimento percorre no mecanismo, como uma engrenagem, que relaciona fatos e realidade com o elo tenso do espírito filosófico investigativo. Nunca alguém se mantém o mesmo quando se resolve pensar, especialmente em épocas de irracionalismos e relativismos como a nossa.

O filósofo não é infeliz, mas um descontente. Ele sabe que os discursos precedentes, majoritários, midiáticos, científicos ou metafísicos e teológicos, apresentam lacunas e são, algumas vezes, vazios de seus próprios sentidos, porque lhes falta substância ou razão de ser. E na tentativa de compreensão, o filósofo para, ausculta o próprio discurso, dialoga o discurso do autor com o seu próprio, e age sobre aquele, oferecendo aos espaços vazios suas interpretações significativas e fundantes, anulando sofismas, revendo princípios e clareando os sentidos.

Ele possui o espírito filosófico, que é a manifestação interior do desejo de interpretar o mundo a partir de uma cosmovisão específica. Ele é um pensador, um fundador de coisas, um intérprete de realidades, de teorias e práticas. É ele quem apresenta explicações, julgamentos, formas metodológicas e elabora conceitos, seus próprios e dos outros. Deveríamos todos nos tornar filósofos.