A história da humanidade mostra que uma das mais trágicas manifestações da natureza humana é a ira. Os campos de trabalho corretivo do regime comunista russo, sob o domínio de Josef Stálin, no Arquipélago Gulag, evidenciaram claramente até onde o ódio humano por uma raça, etnia ou crença pode chegar. Milhares de pessoas foram mortas pelo ódio de um homem transmitido a outros homens culminando no assassinato de pessoas. Como escreveu Aleksandr Solzhenitsyn (ou Soljenítsin), “a linha que separa o bem do mal cruza o coração de cada ser humano. E quem pode destruir um pedaço de seu coração?”. 

Geralmente, manifestamos ira ao sermos contrariados. Quase sempre não admitimos a derrota ou a afronta e reagimos com raiva que, cultivada, dá lugar ao ódio e à violência. João Calvino afirmou que há três erros em nossa ira: o primeiro, quando nos iramos por causas sem importância; o segundo, quando vamos longe demais e nos deixamos levar pelo excesso emocional; e o terceiro, quando nossa ira se volta contra as pessoas, quando, na verdade, deveria ser direcionada contra os nossos próprios erros.

O coração que dá lugar à ira quase sempre produz consequências desastrosas para si mesmo e para os outros. Uma mágoa não tratada ou um estado de ira cultivado, a ausência de perdão e uma obstinada defesa de si mesmo, quase sempre conduzem o seu portador para o caminho de ódio, confronto e violência.

Assim nascem as violências domésticas, os assassinatos em família, os governos totalitários e os genocídios. Tudo nasce antes no coração. Nada se produz fora dele sem que antes não tenha sido mimado no recôndito da alma. 

O teólogo B. B. Warfield, em sua obra “A vida emocional de nosso Senhor”, ao analisar as emoções de Jesus Cristo afirmou que “a raiva sempre tem a dor em sua raiz e é uma reação da alma contra o que lhe causa desconforto”. Curiosamente, Jesus Cristo evidenciou raiva em alguns momentos de seu ministério, especialmente ao lidar com os judeus incrédulos que não só rejeitavam a sua pregação como também tentavam testá-lo em sua sabedoria e divindade. 

As Escrituras Sagradas afirmam que a “ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade” (Romanos 1.18). É da natureza de Deus se irar sem, contudo, pecar. Ele odeia e castiga tudo o que se opõe à sua natureza santa. Jesus se irou ao ver o templo ser usado como lugar de comércio. Ele também se irou ao ver os seus discípulos impedirem as crianças de chegarem até ele (Marcos 10.14). O texto bíblico diz que Cristo “se indignou”.

Jesus não se excedeu em sua raiva a ponto de pecar. Ele não permitiu que a raiva causada pela incredulidade infantil de seus ouvintes ou pela obstinada desobediência deles se transformasse em ódio pecaminoso, porque aquilo pelo que ele se irou era de importância vital e eterna, não era emocionalmente transtornada e nem escondia seus próprios erros. A raiva de Jesus era legítima porque, de fato, era por defesa de uma verdade.

Precisamos controlar a nossa ira. Não devemos permitir que “o sol se ponha sobre a nossa ira” (Efésios 4.26). Podemos nos irar por aquilo que é genuinamente verdadeiro, mas não devemos jamais nos irar a ponto de permitir que percamos o controle de nossas emoções. Nem devemos lutar por interesses que sejam somente nossos, tentando esconder os nossos erros. Tampouco devemos permitir que nos iremos por coisas sem qualquer importância. A ira desenfreada sempre produz o ódio consumidor. Devemos arrancar esse pedaço de nossos corações.