Georgino Júnior é um dos nomes mais importantes do campo das artes mineiras da segunda metade do século XX e do início do século XXI. Artista completo, sua obra abrange produção musical, artes plásticas, textos ficcionais, poemas, crônicas de jornal e charges. Não é forçoso dizer que no campo das artes, Georgino Júnior joga, com maestria, em quase todas as posições que o cenário artístico permite, ampliando a visão que se tem do contemporâneo e das relações pessoais em dois espaços distintos de composição: a cidade, como local de referência artística, e o mundo, como espaço de embate e de conflito.

Por tal razão, não fica distante do centro de sua produção os olhares aos movimentos locais, em especial o que se passa na cidade de Montes Claros, onde viveu por praticamente toda a sua vida. Na mesma medida, não lhe é alheio o tempo histórico do qual faz parte: o mundo partido que foi a segunda metade do século passado e a transformação avassaladora da queda de um bloco político como foi o bloco soviético e a nova dinâmica que em menos de 40 anos transformou radicalmente o mundo depois da popularização da internet. Mesmo imerso nesse espaço conflituoso que é o da virada de um século, era no movimento de isolamento que podia o artista escrever, compor, desenhar e pintar. Um movimento que pensaremos aqui a partir do conceito de paratopia.

O analista do discurso Dominique Mangueneau, em seu livro O contexto da obra literária, buscando entender em que medida o contexto circundante de discursos pode propiciar o surgimento da literatura, e até que ponto os artistas e escritores estão imersos nele, propõe que o grande artista estabelece com o mundo uma relação que ele chama de paratopia. O termo é oriundo de duas palavras gregas: pará que significa “estar ligado a, ao lado de”, de forma a estar uma relação próxima, e tópos que tem, entre outros sentidos, a noção de espaço e lugar. O artista, então, está em constante paratopia: está perto o suficiente para saber o que se passa naquele lugar, mas num limite em que precisa ser respeitado, permitindo ao artista sair do lugar a tempo de não ser por ele envolvido a ponto de não saber distinguir o que ali se coloca.

Um exemplo que dá Dominique Mangueneau em seu texto é o do poeta francês Charles Baudelaire. Baudelaire precisa estar na boêmia, viver nos prostíbulos de Paris, frequentar Montmartre e saber dos vícios humanos para, no momento de seu afastamento desses vícios, poder transformá-los em literatura. Precisa ser, em certa medida, um flâneur para poder concentrar na figura do flâneur o olhar pelo qual reinventa a lírica francesa do período e coloca a poesia a serviço daquilo que é comum e humano, e não a serviço do que é sublime e etéreo.

Em certa medida, é assim que agiu Georgino Júnior na produção artística múltipla que desenvolveu. Sabia dos problemas de Montes Claros, do Brasil, do mundo. Mas precisava recolher-se na “toca”, seu espaço de criação – e que ele definia como sendo ele mesmo – para poder, afastado do mundo, representá-lo. Por isso, os temas de suas figuras não seriam outros senão as pessoas do mundo. Homens e mulheres comuns, com roupas comuns, em festas comuns e alegrias comuns: o gato que anda na noite, a mulher que dança de vermelho, um corpo que veste uma calça jeans, meninos jogando futebol, um casal que admira o horizonte, uma mulher que benze um garoto, dois sertanejos a cavalo pelo sertão, um caboclo numa festa de agosto – a mais popular festa de Montes Claros. Na representação figurativa, nos desenhos e nas telas de Georgino Júnior, o sagrado é também o sagrado comum e popular. Os santos que o povo brasileiro cultua – São Jorge, São Francisco –, e as festas sagradas do povo, como a folia. O povo, em seus indivíduos e em suas vidas que nem sempre recebem o olhar, são os protagonistas das telas do artista.

Recentemente, os herdeiros dessa obra poliédrica brindaram Montes Claros com um espaço a ele dedicado, que leva seu nome. No Espaço Georgino Júnior, pessoas comuns podem se ver representadas nas telas, que trazem ali a fé e as pessoas do lugar, que pode ser qualquer lugar de Minas, do Brasil. O mundo comum, das coisas simples e comuns, é de onde nasce e para a qual se destina a obra de Georgino Júnior. Também recentemente, os herdeiros resolveram vender os originais do pai, o que, por si só, é um ato de desprendimento e de difusão desse que talvez seja um dos mais importantes artista de Montes Claros e de Minas da virada do século. Em razão disso, a crítica não especializada, baseada na obliteração contemporânea da ignorância, acusou um artista comprometido e múltiplo, de difícil delimitação, de ser somente um artista comunista, como se fosse possível reduzi-lo a um único adjetivo. Mas minha função aqui é a de trazer esse artista a seu lugar maior: o do reino da arte e da significação.