Albert Camus, escritor argelino existencialista, em seu clássico “A Queda”, revelou com precisão uma face bastante cruel, mas real, do ser humano: o desejo por tragédias e, mais do que isso, o prazer nelas. 

Ele escreveu assim: “É assim o homem, caro senhor, com duas faces: não consegue amar sem se amar. Observe seus vizinhos, se por acaso ocorrer um falecimento no prédio. Adormecidos em sua vidinha, e eis que morre o porteiro. Despertam imediatamente, agitam-se, informam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no prelo, e o espetáculo começa, finalmente. Eles têm necessidade de tragédia – que se pode fazer? – é sua pequena transcendência, é seu aperitivo”.

Nesse movimento catártico, tornamo-nos espectadores de calamidades alheias e queremos sempre contemplar a reação do outro, muito mais para aprendermos a fugir da desgraça que o abateu do que para consolá-lo. Quase sempre fingimos ao dizer que sentimos a mesma dor.

No fundo, revelamos mais do nosso prazer na dor do outro; porque, em razão da queda que existe em cada um de nós, somos conduzidos pelo coração a pensar que, se o sofrimento o atingiu, ele não me atingirá; e, se não tem a ver comigo, essa realidade, embora eu possa tentar conectá-la a mim, torna-se apenas uma peça retórica sem sentido para a qual eu crio palavras mágicas ou clichês com o objetivo de parecer sensível, quando, na verdade, estou apenas preservando minha própria pele.

Esta é a denúncia de Camus: não conseguimos amar sem nos amar. Somos intrinsecamente egocêntricos e, por isso, egoístas.

O que precisamos fazer é nos prevenir de transformar as tragédias alheias em calamidades ausentes de nós e parar de fingir para nós mesmos e para os outros a respeito de nossos reais sentimentos e afetos.

Sentir a dor do outro não é apenas usar palavras mágicas ou aparentar gestos mecânicos dissimulados; não é parar de dizer que se importa quando, na verdade, o que importa é o ego amaciado; não é dizer que ama quando, na realidade, o que importam são as aparências. 

Devemos, de fato, colocar-nos em condição de mais depurada humanidade, sair da própria arrogância, desprezar o gosto funesto pelas aparências, aniquilar o sobre o que as pessoas vão achar de mim; é habitar com o outro, na mais profunda dor humana, porque é nesse estado que espelhamos o caráter de Jesus Cristo que, mesmo sendo Deus, tornou-se homem, habitou entre nós e nos amou a tal ponto de dar a sua vida voluntariamente por nós, sendo nós ainda seus ofensores.